O Coral Cênico dos Cidadãos Cantantes

Um tempinho atrás, a Isabela Silva entrou em contato comigo por e-mail para falar sobre o seu projeto de TCC, o podcast Coletive-se – você pode escutá-lo nesse link. Para qualquer pessoa que se interessa sobre saúde mental, é algo a ser escutado com atenção, já que fala um pouco de como é o sistema de psiquiatria na saúde pública, relatos de pessosa que sofrem de algum distúrbio, e ainda fala sobre o Coral Cênico dos Cidadãos Cantantes, que até então eu não conhecia.

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O Coral Cênico Cidadãos Cantantes faz parte da ONG “SOS Saúde Mental, Ecologia e Cultura” e ao CECCO – Centro de Convivência e Cooperativa Parque Ibirapuera – Coordenadoria de Saúde da Subprefeitura de Vila Mariana, São Paulo. Ele segue uma política de inclusão entre pessoas que passam por sofrimentos e distúrbios mentais com o público que procura espaços públicos de lazer e cultura na cidade de São Paulo. Como afirma Júlio Cezar Giudice Maluf em seu artigo,

(…) o Coral aparece como uma fuga de um estado de depressão, como que uma “tábua de salvação”; em outro, esta experiência artística é vivida quase como um milagre, possibilitando novos sentidos de vida, especialmente quando se trata da realização de uma criação própria, carregada de vivência e subjetividade – “compor uma música dentro da minha história”.

(…)

A idéia de o trabalho no Coral Cênico se dar pela produção artística, pelo fazer coletivo, e não apenas pela convivência, direta ou indiretamente, perpassa praticamente todos os depoimentos, pois todos defendem o mesmo ponto de vista, que valoriza o indivíduo que faz arte, e participa de um grupo que congrega os mesmos objetivos, no que diz respeito à inclusão e ao respeito às diferenças. É interessante notar que o fazer artístico neste grupo inclui lidar com o outro, e reconhecer o outro em suas diferenças e similaridades. O trabalho de inclusão, considerado fundamental pela própria organização que lhe dá abrigo (o CECCO), espelha-se no processo artístico do grupo, que se evidencia pelo respeito aos ritmos individuais, às escutas diversas e às diferentes vozes.

Aqui dá pra conhecer um pouco do trabalho deles. Inclusão social, apoio e respeito é muito importante para qualquer pessoa que sofra de algum problema de saúde mental.

Espero que gostem!

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A minha depressão e a sua religião não se misturam.

Gostaria de deixar bem claro que esse texto corresponde à minha realidade, à minha vivência. Seja mais do que bem vindo para falar sobre a sua nos comentários.

Desde que a minha depressão começou a ficar mais visível, fui exposta à religião como uma espécie de “salvação”. É muito difícil para a minha família entender que existem razões psicológicas, biológicas, e inclusive sociais para eu me encontrar nesse estado. Então, apontaram para cima. 

É espiritual, é o demônio em você, é a macumba que fizeram, é a nossa falta de fé, é uma punição, é inveja, é falta de oração, é termos fugido da igreja…

Descaracterizaram e deslegitimaram tudo o que eu sentia, tudo o que estava acontecendo em nome do fantástico, em nome do espiritual. Procuraram nas orações e nas missas uma salvação, uma libertação que nunca chegou. Pessoas mal intencionadas se aproximaram dos meus pais nesse momento difícil para “ajudar”… mas toda ajuda tinha um custo. 

Na época que meus pais eram mais religiosos foi a época em que eu mais me deprimi.

Não ajuda muito ouvir de todo mundo que você é espiritualmente doente. Não ajuda ouvir que é um demônio dentro de você, e que se você não reverenciar aquele deus, repetir aquela oração, ir naquela missa, nada vai ajudar. Não ajuda ver uma pessoa se aproveitando de um momento ruim da sua família para ganhar dinheiro. Não ajuda ser vista como possuída, não ajuda ver cada ação sua sendo atribuída ao demônio quando convém.

E ai de você se não cooperar, ai de você se não acreditar, você tem que acreditar, você tem que rezar.

Na minha vida, sofri mais pressão por parte de familiares para ir à igreja do que pressionada para fumar maconha. 

Quando você está lidando com uma pessoa depressiva, jogar inúmeras culpas só piora o estado. Tentar empurrar uma crença só vai fazer com que a gente se sinta pior, culpado, sujo. Você pode ter as melhores intenções do mundo, mas é bem capaz que traga mais mal do que coisas boas.

Mas o filho do tio do primo do meu sobrinho do meu colega de trabalho começou a ir na igreja e tá curado!!

Ótimo pra ele. Eu sempre defendo que cada um deve encontrar um jeito de melhorar – seja em psicólogo, psiquiatra, meditação, yoga… o que eu digo é: procure ajuda. Mas conscientemente desenvolver uma espiritualidade ou já ter uma é muito diferente do que forçar uma pessoa que já está vulnerável a tomar esse passo. Nem todo mundo quer, nem todo mundo acredita.

E desculpa estourar a bola de vocês, mas ninguém é errado por não acreditar. Do mesmo jeito que você não se torna uma pessoa melhor só porque acredita em algo. 

Vou repetir novamente pra ver se vocês entendem: ter uma crença diferente – ou não ter nenhuma – não é errado. Você não é melhor que ninguém por acreditar em coisa x, você não é melhor que ninguém por acreditar em coisa y. Não existe crença certa nem crença errada. Pensar o contrário é ter a mente fechada e ser preconceituoso (vocês já repararam que a maioria das religiões europeias trata com desprezo e ódio as religiões africanas? vocês acham que isso é o quê, só questão religiosa? de repente decidiram que só pessoas católicas brancas acreditam na coisa certa? bitch, please).

Depressão, transtorno bipolar, transtorno borderline, esquizofrenia: todas elas são doenças cientificamente comprovadas. Elas existem. Elas são reais. E são palpáveis para quem sofre delas. 

A minha depressão e a sua religião não se misturam. Não coloque os seus dogmas religiosos no meu corpo. Não tente me arrebanhar para a sua igreja só porque estou num momento vulnerável. Se eu quiser que a religião faça parte do meu tratamento, se eu quiser desenvolver minha espiritualidade, vou porque quero. 

Precisamos de apoio verdadeiro, de pessoas que querem nos escutar, pessoas queridas, pessoas que sabem ser neutras, que sabem nos escutar, que entendem de verdade os nossos problemas ao invés de dizer “pede pra Deus”, “reza que ele sabe o que faz”, “isso é falta de deus”. Não precisamos de mais culpa, não precisamos de mais vozes nos dizendo que fazemos coisas erradas, que somos pecadores.

Não deslegitime nossos sentimentos, nossas sensações por conta da sua crença. Dizer que o depressivo é possuído por uma força maligna ajuda a perpetuar o estigma e o preconceito. Isso faz com que as pessoas não acreditem mais no que dissermos, que nosso discurso não deve ser escutado porque estamos falando pelo demônio. 

Eu fiquei muito tempo sem ir a um psicólogo e psiquiatra porque acreditavam que meu problema era fundamentalmente espiritual. Hoje tenho acesso a esses tratamentos, e ainda acreditam nisso. Todo o mérito da minha psicóloga e da minha psiquiatra vão por água abaixo por aqueles que deveriam me apoiar e me escutar. Tudo o que eu exponho sobre a minha doença é descaracterizado, distorcido, jogado no lixo. E por mais que eu repita que hoje estou bem, estou estável, estou conseguindo viver minha vida nunca acreditam nisso direito, porque preferem acreditar em deuses e demônios ao invés de abrirem os olhos para a filha que está na frente deles.

É por isso que eu quero ser psicóloga, é por isso que estou estudando muito pra entrar em uma faculdade, é por isso que eu tenho esse blog. Eu cansei de tanta ignorância disfarçada de preocupação, tanto charlatanismo disfarçado de verdade, tanta gente se aproveitando da nossa situação, tanta gente não entendendo nada e falando merda.

Não, gente. As coisas não funcionam assim. E enquanto eu tiver um lugar para expor essas situações na internet e vontade de escrever, não vou me calar.

Eu tenho aquela tristeza de verão…

TW: depressão, automutilação. Preserve-se, não leia sobre o que pode te causar mal-estar! ❤(◕‿◕✿)

 

Antes de eu começar a expor meus pontos, quero que você saia um pouco da sua casinha e tente se imaginar na seguinte situação:

Você é uma menina de 15 anos. Você, na fase que está, quer se distanciar das outras pessoas. Quer se destacar, quer ser diferente. Surge um desprezo pela maioria das outras meninas do seu convívio, Você vem sido bombardeada, desde criança, a imagens impossíveis de serem atingidas: a Barbie linda, magra, com a vida perfeita;  narrativas que apoiam sua submissão a relacionamentos inadequados e abusivos; narrativas que tiram a sua agência e dizem o tempo inteiro que você não é magra o suficiente, bonita, rica o suficiente.

Você não quer mais nada disso. Você se sente triste o suficiente para procurar outras narrativas, outras plataformas que te acolham melhor. E aí você vê naquela série de TV a menina que é magra, bonita, tem amigos mas também é triste e tem comportamentos autodestrutivos. E todo mundo adora aquela menina, todo mundo quer ser aquela menina, criam-se espaços e mais espaços para dizerem o quão desejável aquela menina é. Você se identifica com ela ao mesmo tempo que não se sente boa o suficiente para ser como ela. Mesmo que ela tenha inumeros problemas e se destrua constantemente.

O que acontece?

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Todos querem ser juízes.

Eu juro que eu tentei de todas as formas achar o autor dessa imagem. Se você encontrar, me avise para que eu dê os devidos créditos.

Eu tentei de todas as formas achar o autor dessa imagem. Se você encontrar, me avise para que eu dê os devidos créditos.

Trigger Warning*: suicídio.

Sempre que alguma celebridade se suicida, se inicia um exaustivo debate – principalmente nas redes sociais – sobre o assunto. Todos querem ser juízes mas nem todos sabem julgar de acordo com os dois lados do tribunal.

*Trigger Warning é uma expressão em inglês que pode ser traduzida como gatilho. Ao ler coisas sobre determinado tema, você pode acabar revivendo momentos e sensações ruins, causando um desconforto extremo. Utilizo aqui o TW para que você saiba o tema principal do texto e se preserve. Não vale a pena ficar mal por causa de um texto da internet. Sua saúde vem em primeiro lugar, gafanhoto.

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Distúrbios de Ansiedade são reais e sérios

Tradução autorizada do texto original de s.e. smith, publicado em seu site meloukhia.net em 29 de abril de 2013. Nota: este post discute de maneira gráfica ataques de pânico.

Condições de saúde mental em geral parecem ser algo que a maioria das pessoas tem dificuldade em entender. Para aqueles que não sofrem de doenças mentais, compreender algo que não é obviamente físico é desafiador, mesmo quando encaram as evidências de que essas condições mentais podem ter efeitos fisiológicos; as doenças mentais são ‘algo dentro da sua cabeça’ e isso dificulta a compreensão das pessoas. Uma perna quebrada é algo que você consegue ver, avaliar e consertar. Um cérebro que funciona de modo diferente pode manifestar sintomas, pode ter resultados diferentes em exames cerebrais, mas não é algo tão claro e óbvio quanto uma perna que está num ângulo que não está correto, ou uma lesão medular que dificulta o caminhar.

As pessoas tendem a desconsiderar doenças mentais, e um caso onde isso fica muito claro é com distúrbios de ansiedade, que são comumente vistos como algo que só está na cabeça do paciente e não é real. A seriedade dos distúrbios de ansiedade não é compreendida, e são vistas como algo que as pessoas superam ou são capazes de controlar; observadores não entendem o que é ter fobias graves, ansiedade social ou outras condições associadas com a ansiedade crônica. Eles não aceitam o fato de que, para algumas pessoas, essas condições podem causar sérios prejuízos.

Por quase dez anos, me afastar por mais de 32 km da minha casa era quase impossível. Não no sentido que eu ficaria com uma ansiedade e preocupação extrema (minha casa vai pegar fogo enquanto eu estiver fora, um terremoto vai acontecer, alguém vai invadir, será que eu deixei o fogão ligado, será que eu tranquei as portas, será que minhas prateleiras de livros vão cair e esmagar um dos gatos, será que o responsável por alimentar os gatos vai deixá-los fugir sem querer…), mesmo que os dois sentimentos eram frequentes; mas eu ficava fisicamente doente. Eu ficava com tremores e suava frio. Minha visão ficava turva, meu coração batia mais rápido, caminhar se tornava difícil, e a vontade de ir ao banheiro aumentava. Eu vomitava continuamente – por anos, as pessoas achavam que era só muita náusea por conta do movimento do carro, e eu nada fazia para dissipar essa ideia porque eu tinha vergonha do fato que a doença estava plantada no meu cérebro.

Só escrevendo livremente sobre a superfície do que eram meus ataques de pânico já está me fazendo cerrar o maxilar e me arrepiar. Me dá náuseas lembrar disso. Chegou ao ponto que pensar em viajar me deixava com uma ansiedade tão grande que eu fazia questão de desviar de qualquer conversa que chegasse nesse assunto. Quando eu realmente precisava viajar por alguma razão, minha ansiedade ficava atacada dias ou até semanas antes. Nas noites anteriores à viagem, dormir era impossível, e eu me deitava na cama suando frio, tremendo, levantando de hora em hora para vomitar. Durante o vôo, eu mal me mexia na cadeira, com os olhos marcados pelas olheiras.

Sair de casa era um tormento para mim. Era um tormento físico e emocional. Eu tinha ataques de pânicos tão graves que eles limitavam minha habilidade de participar da sociedade, de sair com meus amigos, de visitar pessoas; um amigo se mudou para uma cidade distante e eu não o visitei por anos porque eu sabia que meu corpo não aguentaria a viagem. Eu teria que dirigir até a cidade, e então entrar num avião, e então estar num lugar estranho. Eu seria uma bagunça trêmula, agitada e horrível o tempo todo.

Eu tinha uma doença mental séria. E eu tinha vergonha disso. Eu tentei disfarçar o máximo que pude; eu já tinha a desculpa perfeita para não viajar, para não visitar os outros, para ter passado tão mal num trajeto de carro, porque eu ficava em silêncio profundo quando ia à cidade com outras pessoas. Havia sempre uma boa razão, uma boa fachada. As pessoas não tinham ideia do que eu aguentei porque eu não queria que zombassem de mim por isso, e porque eu sentia que isso era ridículo, que eu não deveria ‘permitir’ que o meu cérebro me controlasse tanto, porque eu não entendia como distúrbios de ansiedade funcionavam, e eu não entendia ataques de pânicos. Eu não entendia que isso era algo que fugia do meu controle.

E então eu consegui me tratar, e comecei a tomar remédios. Comecei a viajar. Comecei a experimentar a animação ao invés do nervoso. Eu inventava desculpas para ir até a cidade, eu apreciava viagens de avião para novos lugares – como eu fazia quando eu era criança. Eu ainda tenho ataques de pânico – é algo que jamais vai sumir, mas eles tem outras raízes, e consigo gerenciar isso com mais eficiência agora, com tratamento e ajuda e me abrindo com as outras pessoas. Os meus ataques ainda são sérios, e um ambiente pode se transformar de ótimo para radicalmente inseguro para mim num piscar de olhos, mas essa não é mais uma tarefa solitária.

O problema é que, ao mesmo tempo que as pessoas agem como se os distúrbios de ansiedade não fossem grande coisa e que a gravidade dos ataques de pânico é exagerada. Elas claramente nunca vivenciaram nenhuma dessas coisas, e reproduzem apenas conceitos específicos e superficiais sobre doenças mentais. Muitos desses conceitos partem de quem já teve experiências com esses distúrbios, porque somos socializados a termos vergonha de nossas condições e a enfrentar tudo com panos quentes ao invés de mostrar aos outros a realidade. Acabamos reforçando esses conceitos superficiais de ‘eu tinha ataques de pânicos mas superei/eles não eram grande coisa’. Consequentemente, as pessoas pensam que um ataque de pânico é algo que você simplesmente pode superar com esforço, e eles não entendem o quão debilitante pode ser.

Só escrever esse texto já é difícil para mim; estou tremendo, meu maxilar está cerrado. Meu estômago está se retorcendo um pouco. Falar sobre ataques de pânicos é, para alguns, um ótimo jeito de causar um. Isso demonstra o quão frustrantes e ilógicos eles são. Você acha que isso é algo que escolhemos para nós mesmos? Você acha que gostamos disso? Você acha que queremos ou gostamos da atenção? Você acha que todos nós pensamos que é ótimo que simplesmente não conseguimos participar da vida social como todo mundo?

Acredite em mim, se existisse uma pílula que garantisse que eu jamais tivesse um ataque de pânico novamente, eu tomaria na mesma hora – mas ela não existe. Então, por enquanto, eu preciso que o mundo leve esses ataques a sério e entendam que distúrbios de ansiedade são reais e tem consequências muito sérias, e que pessoas que sofrem com isso tem necessidades diferentes.

Algumas dessas necessidades podem parecer bizarras a você, mas isso não faz com que elas sejam inválidas.