Guest Post: Relato sobre Auto-mutilação

!TRIGGER-WARNING: auto-mutilação, abuso, capacitismo. Não leia se esse assunto te causa incômodos!

Texto baseado nas experiências do autor e histórias de conhecidos.

Este texto é para aqueles que praticam auto-mutilação e para aqueles que não praticam.

Muita gente acha que sabe o que é auto-mutilação. Quem faz isso, quem não faz isso, quem já parou com isso e quem não sabe que faz isso. Muita gente, especialmente quem não faz, acha que sabe o segredo de como parar, acha que sabe as razões e de que maneira denominar quem pratica. Quando dizemos “auto-mutilação”, a primeira reação de praticamente todo mundo é pensar em alguém que faz feridas horizontais nos pulsos e esconde com mangas longas ou braceletes. Muita gente acha que pessoas que praticam auto-mutilação são suicidas em potencial, que a prática em si é uma tentativa de suicídio. É claro que estas conclusões geralmente são as de quem não pratica isso e que não tem real interesse em quem pratica. E tudo isso é errado. Tudo isso é falta de informação, é capacitismo e, em alguns casos, abuso.

Aqui vai um segredo que não deveria ser um segredo: auto-mutilação é muito mais do que marcas horizontais no pulso.

A definição mais simples e clínica de auto-mutilação é a seguinte: ferimentos físicos autoinfligidos de maneira consciente e deliberada. A psiquiatria a considera como sintoma de uma série de doenças mentais, desde transtorno limítrofe a esquizofrenia. Eu concordo com isso em partes. A psiquiatra que eu frequento me ensinou a ver o que compõe minhas doenças mentais como sintomas e não como diagnósticos – diagnósticos são listas de sintomas, são um padrão e, especialmente no caso de uma doença mental, isso é completamente inútil. É inútil porque uma vasta quantidade de pacientes apresentam sintomas que não estão na lista padrão e acabam sendo diagnosticados de maneira “errada”. Doenças mentais não são aquela passada rápida no médico e um “você tem esquizofrenia, aqui está uma receita de risperidona, tome 2 comprimidos por dia e você vai ficar bem”. Tratar uma doença mental é acompanhar mudanças, é tratar sintomas e não diagnósticos; muitas vezes a medicação padrão pode não funcionar para o paciente e psiquiatras precisam adicionar outros remédios para o auxílio – por exemplo, eu tomo um remédio chamado lamotrigina, que é um anticonvulsivo, mas eu não tenho convulsões nem epilepsia, este remédio é (supostamente) para auxiliar o antidepressivo que eu tomo. Mas emergindo da digressão: sim, auto-mutilação pode ser um sintoma para uma árvore de doenças mentais para médicos e observadores, mas para quem pratica isso, auto-mutilação tem muitos outros codinomes e raramente ele é “sintoma”. Seguem diagramas:

Problema ➝ auto-mutilação ➝ alívio e/ou diminuição de ansiedade

Problema ➝ auto-mutilação ➝ sensação de controle e/ou ordem

Problema ➝ auto-mutilação ➝ (auto-)punição infligida

Problema ➝ auto-mutilação ➝ ritual completo

? ➝ auto-mutilação ➝ ?

O ponto de interrogação é importante. Não importa há quanto tempo você pratica isso, não importa quando você começou, não importa a razão de você ter começado, em algum momento, quando alguém fizer a terrível e insensata pergunta de “por que você faz isso?” a interrogação ecoa na sua cabeça. Por que eu faço isso? Por quê eu faço isso? Pelo quê eu faço isso?

Eu, particularmente, tenho uma lista. Acho que todos nós temos em algum momento. Mas, veja bem, muitas vezes a lista não é sobre o problema, mas sim sobre a consequência: eu faço isso porque preciso me acalmar; eu faço isso porque não suporto o caos ao redor de mim; eu faço isso para me punir; eu faço isso porque é uma compulsão; eu faço isso porque…

Eu faço isso porque é necessário. A pessoa pode ter começado por outra razão, pode ter pensado que era só uma vez, algumas vezes, em momentos bem exclusivos, mas depois de um tempo fazendo isso, depois de um tempo *crescendo* fazendo isso e de repente se vê em frente àquela impertinente pergunta, “necessidade” é o mais próximo de “motivo universal” que eu consigo chegar. Quem não pratica isso, e às vezes até algumas pessoas que praticam isso, não conseguem aceitar apenas “necessidade”. Precisa ter uma razão tangível. Precisa ter o núcleo maciço de uma bola de cristal mostrando a razão disso, a razão de todas as vezes que isso acontece. Provavelmente algo a ver com “cortar o problema pela raiz”.

Mas não há raiz. Há um labirinto, há névoa, há escuridão, há vácuo, mas não há uma raiz.

Eu vou sair do degrau de observador. Eu vou sair do degrau de quem vê a auto-mutilação como um sintoma e vou para o degrau da pessoa que pratica auto-mutilação. Para mim, auto-mutilação é um hábito. Essa definição não é ordinária. 2015 marca exatamente uma década que eu convivo com auto-mutilação, literalmente metade da minha vida, e dizer que isso é um hábito tem uma profundidade que muitos não veem. Dizer que auto-mutilação é um hábito é dizer que para mim ela é normal, é natural, é cotidiano, é algo que não tem sentido em ser olhado como aberração, como algo chocante. Vamos acentuar uma palavra aqui: é normal, isto é, é uma norma. É algo inerente ao meu habitat. Não só ao meu, também a muitos dos que a praticam também.

Aqui o choque de visões é algo fundamental, porque dele vem a patologização, dele vem o capacitismo, dele vem o abuso. Pessoas que não se auto-mutilam não entendem o que a normalidade quer dizer; não entendem que para nós isso não é um problema, que é parte da nossa vida assim como pentear os cabelos ou amarrar os sapatos. E a parte curiosa é que quando perguntamos o que tem de errado em praticar auto-mutilação, interlocutores não sabem responder. Geralmente as respostas que oferecem são ou autocentradas ou óbvias: “porque machuca” ou, a clássica, “porque ME machuca”. É errado porque incomodam a eles. É errado porque *eles* acham isso obsceno. É errado porque eles acham que entendem nossos sentimentos por completo como se tivéssemos uma consciência compartilhada. E isso é perigoso. Parece bobo ou inofensivo, mas isso é abuso.

É abuso porque dentro dessa frase há um ultimato: “isso é errado, você deve parar de fazer isso porque me incomoda”. Este incômodo não é só uma contração de sobrancelhas. Este incômodo pode ser um tapa ou soco no rosto, pode ser uma bronca aos gritos, pode ser humilhação, um “troco”: um amigo, na tentativa de ‘ajudar’, cometer um ato de auto-mutilação como um ultimato, como um “o que você sente quando vê que eu fiz isso em mim é o que eu sinto quando vejo que você faz isso” (o que não é verdade, isso é trivialização e abusivo em vários níveis), um abuso repetido porque a pessoa acha que nós “gostamos de sentir dor e ser maltratados”. Na esfera social, pode ter consequências horríveis. O “incômodo” nos torna párias; somos negados emprego ou moradia (“isso pode assustar clientes/outros moradores”), tratamento decente (“se você se machuca, de que adianta te levar no médico por outra coisa?”), um diálogo que seja porque somos aberrações. Somos tratades como pessoas contagiosas por algo que se fosse qualquer outra coisa, seria absurdo: as pessoas nos tratam mal por algo que nós fazemos a nós mesmos, por algo que não afeta nenhuma outra pessoa fisicamente.

O capacitismo também pode vir do “lado oposto”: pessoas que sentem fascinação a respeito da auto-mutilação. Quantas vezes não ouvimos “queria ter coragem para fazer isso”? Ou pessoas que sem cerimônias perguntam se sentimos alguma espécie de prazer sexual nisso? (sexual porque absolutamente nada na sociedade escapa da sexualização compulsiva) Já vi pessoas quererem um relacionamento com alguém que praticava auto-mutilação porque tinha fetiche. *Isso* é obsceno. A reação da sociedade em relação a isso é obsceno.

Mas não para por aí. Há o capacitismo “interno”. Pessoas que praticam auto-mutilação dizendo a outras que elas não podem dizer que o que fazem é auto-mutilação porque “não machuca tanto assim”, “você não tem tantas cicatrizes quanto eu/fulane tem”. Somos negados o espaço ao qual deveríamos pertencer. Lembra que eu disse que auto-mutilação é muito mais do que marcas horizontais no pulso? Ela é. Ela é (TRIGGER-WARNING: DESCRIÇÕES ESPECÍFICAS) arranhões, hematomas, queimaduras, mordidas, estalar elástico na pele, propositalmente ingerir algo nocivo, negar comida ao corpo, sabotar um tratamento. Às vezes a auto-mutilação não deixa marcas, ela pode ser mental: propositalmente se colocar em situações de gatilho, punição em uma meta (“se eu não conseguir fazer tal coisa em tal tempo, eu não vou me permitir …”) e muitas, muitas outras coisas.

Agora, alguém poderia perguntar: “mas se clinicamente auto-mutilação é considerado um sintoma, isso não quer dizer que é algo errado?”. A resposta é não, auto-mutilação não é errado. Auto-mutilação não é um problema.

Auto-mutilação é um mecanismo de resposta. Para algumas pessoas, auto-mutilação tem mais efeito do que calmantes, antidepressivos e antipsicóticos. E isso não é errado. Se você é alguém que não pratica auto-mutilação e conhece alguém que o faça, respeite isso. Isso não é sobre você. Isso não é da sua conta. Você só pode ajudar a pessoa se a pessoa quiser ser ajudada.

É claro que tem pessoas que querem parar. Tentaram muitas vezes, mas falharam. Tentam, mas não conseguem seguir um plano. Tentam, mas não encontram alternativas, seja porque não estão prontos para parar, seja porque não conseguiram encontrar um lugar para se apoiar. Se você quer parar, faça a si próprio as seguintes perguntas. Pense a respeito o quanto puder.

1) É de sua própria vontade o desejo de parar?

2) Em momentos de crise, você tem mais de uma alternativa que não seja nociva a você?

3) Você conhece duas ou mais pessoas dispostas a ajudar quando há crises?

4) No momento, você é capaz de se livrar do que utiliza para a auto-mutilação sem sentir culpa, arrependimento, ansiedade?

5) O que você sente quando ocorre o pensamento de parar a auto-mutilação? Apreensividade? Alívio? Medo? Esperança? Pânico?

Todas as perguntas são importantes, mas as cruciais são a segunda e a quinta. A chave para parar com um hábito é ter outro para substituí-lo. Este outro hábito tem que ser seu, apenas seu e não envolver nenhuma outra pessoa. Se há medo, a pergunta de “mas se eu parar, o que eu vou fazer então?” quando a ideia de parar surgir, significa que você ainda não está preparade para se desligar do hábito. E não tem nada de errado nisso. Se você conhece alguém que entenda do assunto e saiba lidar com isso de maneira que não seja nocivo, converse com ela a respeito de uma relação de sponsor. Outra coisa extremamente importante é ter ferramentas de primeiros-socorros, além do número da emergência ou de alguém que rapidamente pode te levar à emergência. Se você quiser, documente o progresso num diário. A única coisa que eu aconselho a não fazer é cold turkey, isto é, parar de repente sem ter nenhuma outra base porque isso é destrutivo. Lembre-se também de que recaídas acontecem, e isso não é errado, não significa que você não pode ultrapassar isso. Você pode.

A pessoas que não praticam auto-mutilação mas conhecem alguém que o faça: não pergunte “por que”, não diga “você precisa parar”, não julgue. Pergunte se você pode ajudar e de que maneira. Ouça, não fale. Ofereça segurança.

A pessoas que praticam auto-mutilação: você não está fazendo nada de errado. Você não vale menos do que qualquer outra pessoa por isso. Isso não é covardia. Isso não é “masoquismo”. E você é muito mais do que as marcas, físicas ou mentais.


Ezra Moraes-Chaves é escritor, ocasional pintor, fotógrafo amador e estudante. Escreve um blog pessoal no Ghost.

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