Eu não sou a minha depressão.

Oi, você aí.

Meu nome é Larissa, eu tenho 22 anos e moro em São Paulo. Eu me formei em Publicidade e Propaganda pelo Senac em 2013. Tenho certificado de fluência em inglês desde 2009, quando eu tinha dezessete anos. Escrevo desde que me conheço por gente – inclusive lancei uma coletânea de textos em junho desse ano e já tive um poema meu publicado numa antologia de poemas. Eu já fiz aulas de ballet quando criança, já participei até do coral da escola, fiz aulas de violão, já fiz seis meses de tribal fusion (inclusive saudades). Não sei dançar ballet nem cantar nem tocar violão, mas eu tentei. Ah! Já fiz aulas de natação também. Não sei nadar. Já ganhei uma medalha na Olimpíada de Ortografia com uns oito anos. Já dancei vestida de leoa pra escola.

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O meu filme favorito é o mesmo desde 2003: Chicago. Eu ainda tenho calafrios toda vez que o vejo ou escuto a trilha sonora. Eu sou apaixonada por musicais e se eu pudesse, minha vida seria um. Aliás, taí um ponto alto da minha vida: assistir The Rocky Horror Picture Show e dançar e cantar com amigas queridas. Eu já li todos os livros da série do Harry Potter inúmeras vezes e ainda me pego rindo de algum trecho que lembrei do nada. Eu dou muita risada sozinha. Até demais. Será que é mal de filha única? Não sei. É irrelevante.

Meu TCC foi sobre True Blood, e hoje eu não suporto mais nem escutar o nome dessa série. Aliás, eu sou assim: fico obcecada por uma coisa, devoro tudo o que puder, e depois me canso. Eu amo ficção. Eu amo a ideia de imergir numa vida que não seja a minha. É a única coisa que faz sentido pra mim na maior parte do tempo.

Eu sou alucinada por chocolate, por batata frita, por comida japonesa, por macarrão, por sorvete, por cerveja, por saquê, por chá, por pizza. Eu poderia falar com você sobre comida por horas a fio. Nada me deixa mais chateada do que pagar por comida e não gostar do que estou comendo.

Eu não me lembro quando eu descobri o feminismo – na verdade eu sempre fui meio feminista, só não tinha dado nome aos burros ainda. Eu nunca me senti tão dona das minhas ações e do meu caminho, e se eu puder ajudar outras mulheres nessa caminhada, ótimo. Eu sempre me dei mil vezes melhor com mulheres do que com homens. Acho que isso explica algumas coisas. Eu amo a força da amizade feminina, sempre tive inúmeros exemplos ótimos de mulheres – seja na “vida real”, seja à distância.

Eu tenho amigos. O suficiente, até. Como uma pessoa que odeia sair de casa tem amigos tão incríveis? Sei lá. Mas eu os tenho, e eu os amo, e eles me ensinam coisas novas o dia inteiro. Sem eles, eu não encontraria dentro de mim a força que preciso para sobreviver. Eles me apoiam, mandam eu ir me foder quando necessário, me fazem rir, me fazem chorar (de alegria). Eu torço muito por eles. Quero que cada um deles conquiste o mundo.

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(bateu a preguiça aqui de pegar mais fotos, dsclp)

Além de tudo isso, eu tenho depressão, transtorno de ansiedade generalizada e compulsão alimentar.

Comecei a apresentar os primeiros sintomas com 11 anos. Lógico que na época eu não fazia ideia que eram sintomas de depressão. Achei que era só uma fase. E podia ser só isso mesmo, todo mundo sabe que a adolescência é um período cagado na vida de qualquer um.

Mas eu não queria contar nada disso pra ninguém. Sabia que não me entenderiam, achei que tudo aquilo ia passar. Eu me cortava e me machuava e não entendia o porquê. Eu, que sempre tive as melhores notas da sala, comecei a não querer fazer mais nada. Nem livro pra escola eu lia – euzinha, a que sempre devorou livros. Troquei de escola, tudo piorou mais ainda. Eu descobri o que era ser solitária, o que significava um monte de gente rindo de você, tirando sarro, dizendo que você é menos do que realmente é.

Esse é o problema em achar que tudo é uma “fase”. Às vezes a gente passa pras fases mais avançadas, onde tudo começa a ir por água abaixo. Eu passei anos sem saber receber um elogio – e ainda não sei. Eu passei anos trancada dentro de casa porque me sentia inadequada – e ainda passo. Eu passei anos sem conseguir olhar na cara das pessoas de tanta vergonha. Tudo era mais difícil, tudo era motivo de choro, de mágoa. Eu passei a me tornar uma pessoa agressiva e estourada. Se alguém olhava meio torto para mim já era o suficiente pra eu berrar e xingar. Eu já berrei com um moleque na escola por conta de um comentário tosco sobre a Floresta Amazônica. Eu já fiz escândalo no meio da sala de aula porque não queriam passar a folha de exercícios pra mim. Eu já arranhei meus braços inteiros, descontrolada, porque riram de mim numa aula x. Era assim que eu lidava com tudo: com raiva, com berros, com xingamentos. Grande parte disso porque era o jeito que lidam comigo aqui em casa. Qualquer coisa é grito, é xingamento, é ofensa, é violência.

Eu perdi a maior parte da minha juventude por conta da depressão. Simplesmente porque eu acreditava que eu “era assim” e que “não tinha jeito”. Eu era ruim. Eu não prestava. Eu deveria morrer logo. Eu passei a maior parte da minha juventude querendo morrer. Quando colocaram religião, espíritos e demônios no meio, aí é que a coisa ficou horrorosa mesmo. Já era ruim: ficou pior. Eu achava que isso duraria para sempre.

E de uma certa maneira, isso vai mudar pra sempre. Eu já me acostumei com a ideia de que a depressão sempre vai ser um fantasma na minha vida. Às vezes vou achar que ele parou de me assombrar. Às vezes, como hoje, eu sinto o seu cheiro horrível impregnado na minha pele.

Mas eu estou dizendo tudo isso com um objetivo muito claro:

Eu não sou a minha depressão.

Eu não sou a minha ansiedade.

Eu sou tudo o que eu disse no começo desse texto. Eu sou uma pessoa animada, apaixonada por inúmeras coisas e pessoas, curiosa, tolerante, e o que eu mais quero na vida é ajudar as pessoas. Quando alguém me diz que esse blog os ajudou, nada me deixa mais feliz. Nada. Minha vida não faz sentido se eu não puder estender a minha mão.

A depressão faz parte da minha vida, mas ela não É a minha vida.

Eu sou uma pessoa como você. Eu só preciso de um pouco de ajuda pra chegar lá. Seja com terapia, seja com remédios, não importa. A Larissa que chora e grita querendo morrer também é uma Larissa, concordo, mas ela não sou eu em minha totalidade. A Larissa que chora e grita de rir também faz parte de mim. Eu sou multidimensional – todos nós somos, não sou especial.

Quando você me reduz ao que eu tenho, você reduz a minha essência. Você reduz a minha capacidade de viver melhor, você reduz toda a minha luta contra a depressão, você reduz todo o trabalho que eu tenho pra me manter em pé. Quando você diz que o que eu tenho é “um demônio”, você ignora o trabalho da minha psicóloga e psiquiatra, você reduz todos os anos que ela estudaram para poder me ajudar. 

A minha depressão dificulta inúmeros aspectos da minha vida. Diminui minha capacidade de concentração, minha vontade de viver, minha energia, minha vida profissional… Mas isso não significa que eu seja INCAPAZ de me concentrar, incapaz de viver, incapaz de ter uma vida profissional plena. Eu só preciso de ajuda específica pra fazer todas essas coisas.

Meu nome é Larissa, eu tenho 22 anos, moro em São Paulo e tenho depressão.

Eu tenho depressão.

Eu não SOU a minha depressão.

Ela não me define. Gostar de filmes me define, gostar de chocolate me define, gostar de escrever me define, gostar de ajudar os outros me define. Minhas crises depressivas NÃO. ME. DEFINEM. PORRA.

Eu não sou uma “””””retardada mental”””” por precisar de ajuda pra viver a minha vida bem. Aliás eu nem sei como começar a falar sobre o quão errado é esse termo.

Meu nome é Larissa, eu tenho 22 anos e eu tenho depressão.

Seria infinitamente mais fácil lutar contra isso se você calasse a boca antes de cagar preconceito.

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4 comentários sobre “Eu não sou a minha depressão.

  1. Oi, conheci o blog hoje através do texto “Dicas para lidar com a ansiedade”, uma pessoa me mandou o link. Me identifiquei bastante com a tua história, me tranquilizou ler esse texto.. acho que eu tava precisando ler isso ><
    Saí de uma depressão a poucos meses e ultimamente tava crescendo um medo enorme de sofrer mais uma, acho q eu não suportaria (já tive quatro.. a primeira também foi aos 11 anos).
    Coloquei o link nos favoritos pra, a partir de hoje, acompanhar teu blog. Queria te dizer "obrigada" por ter criado esse projeto.. e, se me permite dizer, tu é linda! Amei teu cabelo *u* kkk um abraço.

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  2. Oi Larissa, eu não sou muito de comentar no seu blog (acho que nunca o fiz), mas depois de ler esse post alguma vezes eu tinha que te dizer o quão importante e significativo ele foi pra mim. Obrigada! Obrigada de verdade por mostrar pra mim que eu não estou sozinha, que essas coisa não aconteceram (e acontecem) só comigo. Tenho 17 anos, e depressão a quase uns 5. Vivo de altos e baixos, posso está muito bem e em seguida me encontro perdida, sozinha, desamparada. Tive uma época forte de surto, parei de escrever (minha grande paixão), tomava inúmeros remédios, não confiava em ninguém, e só me sentia viva quando me cortava. Tentei me matar, não pra chamar atenção, mas porque eu queria sumir. Quando a minha família finalmente notou minha situação, a coisa só piorou, eram gritos, acusações. Queriam achar alguém para culpar, alguém que não fosse eles, que não fosse a situação que estávamos passando na época, mas no fim das contas era tudo isso e mais algumas coisas. Eu me senti suja, errada, culpada e completamente perdida. Desde então venho me esforçando, pratiquei inúmeros esportes, aos poucos voltei a escrever, eu dou risada, converso com as pessoas e venho melhorando muito. Mas admito que eu ainda tenho crises de pânico, não consigo confiar nas pessoas, não consigo terminar nenhum projeto que começo, principalmente histórias, ainda me sinto suja. Desculpa escrever isso tudo em um comentário, mas eu precisava dizer a importância do seu blog pra mim, de como é ler algo que diz que ser depressiva não te define, que as cicatrizes não são quem eu sou, mas uma parte da minha história. Enfim, vou parar de escrever, é isso, queria apenas dizer obrigada.

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