Quando o Espelho Mente

Anorexic-Apple

Atenção! Este post trata de transtornos alimentares e dismorfia corporal. Se esses assuntos te causam mal estar, não leia este post. Preserve-se!

Tem duas coisas que minha mãe costuma falar muito pra mim: “o espelho não mente” e “o espelho é seu melhor amigo”. Nunca ouvi tanta mentira em apenas duas frases, principalmente depois de conviver com inúmeras pessoas que sofrem de transtornos alimentares.

Quando eu tinha meus doze, treze anos, li um livro para a escola (juro que procurei e não achei o nome e não lembro nem com reza) que contava a história de duas amigas: uma queria ser modelo e a outra bailarina. A moça que queria ser modelo começou com uma dieta, coisa inocente. Mas a situação tornou-se uma bola de neve. Em pouquíssimo tempo, contar calorias tornou-se a maior preocupação de sua vida. Ela emagrecia a olhos vistos, e ainda achava que estava gorda, que não estava emagrecendo o suficiente, que cada elogio era uma ofensa velada. A mãe da moça também sofria de problemas com peso, estava sempre tomando laxantes e outros tipos de remédios. Enquanto isso, a sua amiga que queria ser bailarina comia demais. Comia, comia, comia. Mas mesmo assim, ela não engordava – pelo contrário, até emagrecia. De maneira bem simplista, esse livro falava sobre anorexia e bulimia. Foi um livro muito importante pro meu crescimento, mesmo eu não lembrando o nome.

Precisamos deixar uma coisa muito clara: nem toda pessoa que sofre de algum transtorno alimentar é, na prática, magra. Quando falamos de anorexia, por exemplo, somos bombardeados com imagens de modelos magérrimas. Nem sempre as coisas são assim. Na verdade, apenas uma pequena porcentagem das pessoas com transtornos alimentares chegam no estado de emaciação que é retratado pela mídia. Inclusive, esse tipo de pensamento ajuda a deixar as pessoas mais doentes ainda, por acreditarem que ainda não se controlaram o suficiente ou que a doença não é importante o suficiente.  (fonte)

Eu conversei com algumas pessoas que passam por transtornos alimentares, e numa dessas conversas, a Letícia me disse algo muito importante:

esses textos e alertas que a gente vê por aí são tão vazios: nos infantilizam, como se a gente reproduzisse um padrão sem pensar. a gente o que tá fazendo. a gente sabe e faz mesmo assim e tem prazer nisso. a gente olha as pessoas falando de transtorno alimentar e a gente debocha porque anorexia é isso: PRAZER NO CONTROLE, SATISFAÇÃO NO CONTROLE, IDENTIDADE NO CONTROLE. então tanta coisa passa pelos nossos ouvidos e a gente esnoba, esnoba, esnoba, ri e acha os outros “fracos”. a anorexia só funciona porque a gente se sente no controle e vê todas as outras pessoas como inferiores e fracas.

Ou seja, não é apenas o bombardeamento de imagens e figuras magras na mídia, não é a gordofobia que são os únicos responsáveis. Existe também a procura pelo controle, a satisfação que vem dele. Como também afirma a autora do tumblr A Recovered Life,

(…) Contando calorias só pelo ato de ter algo rotineiro e seguro para fazer. Em um mês ou dois, o corpo que eu habitei e que era meu amigo por anos, se tornou repentinamente o meu pior inimigo. Eu estava perdendo peso e não me importava em parar. Eu era boa nisso. Era algo meu. Era uma ladeira escorregadia, descendo cada vez mais na loucura da anorexia e para mim, isso foi muito rápido.

Enquanto a anorexia preza pelo controle, a bulimia vai por outro caminho. Normalmente, a compulsão alimentar está intimamente ligada à bulimia. São relatos e relatos de pessoas que comem descontroladamente e sentem-se muito culpadas depois. Como, por exemplo, diz Shaye, autora do site Your Bulimia Recovery:

Quando eu tinha 17 anos, eu não restringia mais o que eu comia. Minha história com a bulimia toma um rumo mais cruel ainda. Eu comecei a comer compulsivamente. Eu comia para me sentir melhor. Eu comia para entorpecer a minha mente. Eu comia só para sentir que estava fazendo alguma coisa. (…) Quando eu fui para a faculdade, minha bulimia ficou totalmente fora de controle. Eu vomitava várias vezes por hora. Eu não parava de comer, mas também não conseguia manter nada dentro do estômago.

Outro fato interessante exposto no site The Joy Project é que a compulsão alimentar tem sido ligada à mudança dos níveis de triptofano e serotonina no cérebro – e induzir o vômito tem efeitos parecidos. Os dois podem causar uma sensação ‘boa’ que acaba viciando (fonte).

Tanto a anorexia quanto a bulimia estão ligadas ao que chamamos de dismorfia corporal. Esse distúrbio impede que a pessoa veja sua imagem como ela realmente é e enxergue uma versão totalmente distorcida de si mesmo. O psiquiatra Jamie Feusner, que faz pesquisas sobre dismorfia, afirma que:

Definitivamente, a dismorfia não é vaidade. A vaidade é quando a pessoa se preocupa com sua aparência porque tem orgulho dela e acredita que pode ser atrativa. Pessoas com dismorfia podem ser consideradas praticamente o oposto. Embora sejam preocupados, essa preocupação é porque pensam que são extremamente feios.

A revista Donna escreveu uma matéria muito boa sobre dismorfia corporal, falando com Feusner e com outros especialistas da área. Demorei para escolher só um trecho para postar aqui, é muito esclarecedor.

Muitas pessoas, para variar, não levam esses transtornos alimentares a sério. Acham que são problemas restritos a bailarinas, modelos, atores, cantores. Não é bem assim. Ninguém precisa querer ser modelo para desenvolver esses transtornos. É mais um estereótipo que é contraproducente, principalmente para quem sofre deles. Existem inúmeros motivos para desenvolver um transtorno alimentar. Os mais comuns são: ansiedade, depressão, stress familiar, problemas com a autoestima, raiva interna, falta de conhecimento sobre nutrição e pressão social. Ou seja: não é uma questão de ramo de trabalho.

Por fim, gostaria de agradecer a todos que enviaram seus relatos por e-mail. Vocês me ajudaram muito a entender esses transtornos, e espero que esse post seja de alguma utilidade. Lembrando sempre que existe sim como se recuperar – e que sim, o caminho da recuperação é muito complicado, mas vale a pena.

Links Úteis:

The Joy Project

A Recovered Life (a tag “How I Recovered” é excelente)

Your Bulimia Recoveries 

Matéria da Revista Donna sobre Dismorfia Corporal

Distúrbios Alimentares – Como Ajudar Alguém e o que fazer

Matéria da Revista Capitolina sobre Distúrbios Alimentares

Lembrando sempre que você pode enviar o seu relato – sobre transtornos alimentares ou não – para o e-mail fsaudemental@gmail.com! 🙂

Fiquem bem. ❤

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2 comentários sobre “Quando o Espelho Mente

  1. Oi Larissa, sou cristã e acredito em Deus, e vou te falar essas pessoas não tem a mínima noção da merda que estão falando, depressão é doença séria e não tem absolutamente nada a ver com demônios, acredito que todos tem direito de crer do que bem quiser, desde que isso não prejudique a vida do outro. Ninguém tem o direito de dizer o que uma pessoa nessa situação está passando, muito menos prejudicar ainda mais a situação falando coisas por pura ignorância. Enfim, gostei muito do seu blog, parabens pelo post.

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