A minha depressão e a sua religião não se misturam.

Gostaria de deixar bem claro que esse texto corresponde à minha realidade, à minha vivência. Seja mais do que bem vindo para falar sobre a sua nos comentários.

Desde que a minha depressão começou a ficar mais visível, fui exposta à religião como uma espécie de “salvação”. É muito difícil para a minha família entender que existem razões psicológicas, biológicas, e inclusive sociais para eu me encontrar nesse estado. Então, apontaram para cima. 

É espiritual, é o demônio em você, é a macumba que fizeram, é a nossa falta de fé, é uma punição, é inveja, é falta de oração, é termos fugido da igreja…

Descaracterizaram e deslegitimaram tudo o que eu sentia, tudo o que estava acontecendo em nome do fantástico, em nome do espiritual. Procuraram nas orações e nas missas uma salvação, uma libertação que nunca chegou. Pessoas mal intencionadas se aproximaram dos meus pais nesse momento difícil para “ajudar”… mas toda ajuda tinha um custo. 

Na época que meus pais eram mais religiosos foi a época em que eu mais me deprimi.

Não ajuda muito ouvir de todo mundo que você é espiritualmente doente. Não ajuda ouvir que é um demônio dentro de você, e que se você não reverenciar aquele deus, repetir aquela oração, ir naquela missa, nada vai ajudar. Não ajuda ver uma pessoa se aproveitando de um momento ruim da sua família para ganhar dinheiro. Não ajuda ser vista como possuída, não ajuda ver cada ação sua sendo atribuída ao demônio quando convém.

E ai de você se não cooperar, ai de você se não acreditar, você tem que acreditar, você tem que rezar.

Na minha vida, sofri mais pressão por parte de familiares para ir à igreja do que pressionada para fumar maconha. 

Quando você está lidando com uma pessoa depressiva, jogar inúmeras culpas só piora o estado. Tentar empurrar uma crença só vai fazer com que a gente se sinta pior, culpado, sujo. Você pode ter as melhores intenções do mundo, mas é bem capaz que traga mais mal do que coisas boas.

Mas o filho do tio do primo do meu sobrinho do meu colega de trabalho começou a ir na igreja e tá curado!!

Ótimo pra ele. Eu sempre defendo que cada um deve encontrar um jeito de melhorar – seja em psicólogo, psiquiatra, meditação, yoga… o que eu digo é: procure ajuda. Mas conscientemente desenvolver uma espiritualidade ou já ter uma é muito diferente do que forçar uma pessoa que já está vulnerável a tomar esse passo. Nem todo mundo quer, nem todo mundo acredita.

E desculpa estourar a bola de vocês, mas ninguém é errado por não acreditar. Do mesmo jeito que você não se torna uma pessoa melhor só porque acredita em algo. 

Vou repetir novamente pra ver se vocês entendem: ter uma crença diferente – ou não ter nenhuma – não é errado. Você não é melhor que ninguém por acreditar em coisa x, você não é melhor que ninguém por acreditar em coisa y. Não existe crença certa nem crença errada. Pensar o contrário é ter a mente fechada e ser preconceituoso (vocês já repararam que a maioria das religiões europeias trata com desprezo e ódio as religiões africanas? vocês acham que isso é o quê, só questão religiosa? de repente decidiram que só pessoas católicas brancas acreditam na coisa certa? bitch, please).

Depressão, transtorno bipolar, transtorno borderline, esquizofrenia: todas elas são doenças cientificamente comprovadas. Elas existem. Elas são reais. E são palpáveis para quem sofre delas. 

A minha depressão e a sua religião não se misturam. Não coloque os seus dogmas religiosos no meu corpo. Não tente me arrebanhar para a sua igreja só porque estou num momento vulnerável. Se eu quiser que a religião faça parte do meu tratamento, se eu quiser desenvolver minha espiritualidade, vou porque quero. 

Precisamos de apoio verdadeiro, de pessoas que querem nos escutar, pessoas queridas, pessoas que sabem ser neutras, que sabem nos escutar, que entendem de verdade os nossos problemas ao invés de dizer “pede pra Deus”, “reza que ele sabe o que faz”, “isso é falta de deus”. Não precisamos de mais culpa, não precisamos de mais vozes nos dizendo que fazemos coisas erradas, que somos pecadores.

Não deslegitime nossos sentimentos, nossas sensações por conta da sua crença. Dizer que o depressivo é possuído por uma força maligna ajuda a perpetuar o estigma e o preconceito. Isso faz com que as pessoas não acreditem mais no que dissermos, que nosso discurso não deve ser escutado porque estamos falando pelo demônio. 

Eu fiquei muito tempo sem ir a um psicólogo e psiquiatra porque acreditavam que meu problema era fundamentalmente espiritual. Hoje tenho acesso a esses tratamentos, e ainda acreditam nisso. Todo o mérito da minha psicóloga e da minha psiquiatra vão por água abaixo por aqueles que deveriam me apoiar e me escutar. Tudo o que eu exponho sobre a minha doença é descaracterizado, distorcido, jogado no lixo. E por mais que eu repita que hoje estou bem, estou estável, estou conseguindo viver minha vida nunca acreditam nisso direito, porque preferem acreditar em deuses e demônios ao invés de abrirem os olhos para a filha que está na frente deles.

É por isso que eu quero ser psicóloga, é por isso que estou estudando muito pra entrar em uma faculdade, é por isso que eu tenho esse blog. Eu cansei de tanta ignorância disfarçada de preocupação, tanto charlatanismo disfarçado de verdade, tanta gente se aproveitando da nossa situação, tanta gente não entendendo nada e falando merda.

Não, gente. As coisas não funcionam assim. E enquanto eu tiver um lugar para expor essas situações na internet e vontade de escrever, não vou me calar.

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Um comentário sobre “A minha depressão e a sua religião não se misturam.

  1. Exatamente! Eu li minha situação nesse texto. Meu problema não é depressão, mas minha mãe vive me dizendo a mesma coisa. Ela tenta me levar em terreiro de umbanda, em centro espírita, em “médicos” alternativos pra tentar me curar, mas a realidade é que doenças são humanas, não podem ser completamente curadas por mãos divinas. Sim, eu tenho minhas crenças, mas eu não deixo de ir no psiquiatra/psicólogo por conta disso. Eu parei de ir por um tempo porque realmente não estava precisando, e foi justamente aí que minha espiritualidade começou a se desenvolver mais, e adivinha quem está de volta no psicólogo? Euzinha. Apesar da crença ~poder~ ajudar certas pessoas, ela não é a resposta. E muita gente falha em reconhecer isso.

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