Eu tenho aquela tristeza de verão…

TW: depressão, automutilação. Preserve-se, não leia sobre o que pode te causar mal-estar! ❤(◕‿◕✿)

 

Antes de eu começar a expor meus pontos, quero que você saia um pouco da sua casinha e tente se imaginar na seguinte situação:

Você é uma menina de 15 anos. Você, na fase que está, quer se distanciar das outras pessoas. Quer se destacar, quer ser diferente. Surge um desprezo pela maioria das outras meninas do seu convívio, Você vem sido bombardeada, desde criança, a imagens impossíveis de serem atingidas: a Barbie linda, magra, com a vida perfeita;  narrativas que apoiam sua submissão a relacionamentos inadequados e abusivos; narrativas que tiram a sua agência e dizem o tempo inteiro que você não é magra o suficiente, bonita, rica o suficiente.

Você não quer mais nada disso. Você se sente triste o suficiente para procurar outras narrativas, outras plataformas que te acolham melhor. E aí você vê naquela série de TV a menina que é magra, bonita, tem amigos mas também é triste e tem comportamentos autodestrutivos. E todo mundo adora aquela menina, todo mundo quer ser aquela menina, criam-se espaços e mais espaços para dizerem o quão desejável aquela menina é. Você se identifica com ela ao mesmo tempo que não se sente boa o suficiente para ser como ela. Mesmo que ela tenha inumeros problemas e se destrua constantemente.

O que acontece?

Se tem uma época na nossa vida que as coisas começam a dar muito errado é a adolescência. De repente não somos mais crianças mas não somos adultos, coisas estranhas começam a mudar nosso corpo, nossa voz, a maneira com que as pessoas nos tratam, os programas de televisão muda, as mensagens mudam… É mudança demais pra um serzinho só. E você admitindo ou não, todo mundo quer ser notado. Principalmente na adolescência. Olá, mundo, eu estou aqui sim! Olha eu aqui! Eu estou mudando! Não sou mais aquela criancinha!

E quando você combina esse adolescente com uma rede conectada a milhares de outras pessoas e que incentiva o compartilhamento da nossa vida, isso pode dar mais errado ainda.

Vocês se lembram do conceito do spleen? É uma expressão que foi muito popularizada no movimento romântico europeu e brasileiro, que caracterizava uma melancolia extrema, um desejo forte de autodestruição. Álvares de Azevedo é uma boa fonte nacional para entender do que eu estou falando.

Menciono o spleen porque ele me faz lembrar desse movimento recente de glorificação de doenças mentais unidas com o poder da internet. São mensagens e mensagens repetidas pela internet, frases que incitam à autodestruição, à tristeza. E de algum jeito inexplicável, aquilo se tornou legal. De repente, ser a pessoa triste por trás de um blog triste se tornou desejável. Ser a menina triste que chora enquanto fuma cigarro se tornou cool.

E então, a menina que eu citei no início do post vê essas inúmeras mensagens e entende algo. Que talvez ela seja amada em comunidades assim. Que talvez ela seja amada, entendida, notada. Você culparia essa menina?

Não. 

Primeiramente que, se ela usa esses artifícios porque quer ser notada, algo já não está certo desde o início. Se alguém realmente se corta e coloca uma foto na internet porque quer fama, existe algo muito errado.

Segundo motivo: se a nossa sociedade chegou a um ponto a gerar pessoas que glorificam doenças mentais e acham aquilo tudo muito romântico e poético, é porque nossa sociedade chegou ao fundo do poço.

As pessoas que representam a depressão na nossa mídia seguem sempre um padrão, já perceberam? E mesmo asim, são padrões desejáveis.

Exemplo número 1: Effy Stonem, de Skins.

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A Effy Stonem é interpretada por uma mulher jovem, muito bonita, magra, rica, que tem uma vida social agitada. Ela é popular, é misteriosa, se veste bem, é descolada. E sim, ela é triste e cética e vive numa espiral de comportamentos autodestrutivos – mas isso faz parte da persona. Para o público alvo do seriado, ela se torna uma inspiração para muitos garotas em menos de cinco minutos. Era esse o objetivo quando criaram essa personagem? Talvez não. Mas a mensagem foi distorcida, e de repente ela virou o ícone de muitas adolescentes.

Exemplo número 2: Lana del Rey

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Veja bem, eu não escolhi essa imagem inocentemente e nem quero entrar no mérito da música dela ser boa ou não. O que me irrita nela não são as músicas, que eu mal escutei direito. Mas sim a persona dela.

Ela personifica completamente a Beleza Depressiva, o tal do Mal do Século. Ela é linda, jovem, irremediavelmente triste. Ela faz a tristeza virar glamour. Como diz Kat George em seu artigo para o site Portable.tv

(…) o ponto é que Lana está consistentemente glorificando e glamourizando o que eu chamo de ‘doença mental’. Ela faz o desamparo parecer desejável e a depressão, sexy, enquanto ela se transforma nessa criatura profundamente ferida cuja maneira selvagem de viver a vida não é destrutiva, e sim editorialmente cinemática e lindamente trágica.

 

O problema com esse tipo de imagem é que elas não mostram a realidade das doenças mentais. Elas não mostram o que é se cortar todo dia para lidar com a dor, não sabem o que é mal sair da cama porque você não aguenta mais. Não mostram a falta de higiene, o desleixo, as cicatrizes. Eu acredito sim que a arte pode embelezar o que há de feio no mundo e pode trazer uma alternativa, mas precisamos ter cuidado sim no que produzimos. 

Com mensagens assim – presentes em inúmeros filmes – todo o preconceito vem à tona. Criamos uma sociedade que glorifica e demoniza doenças mentais simultaneamente. 

Não precisamos de glórias nem demônios. Precisamos de ajuda, de realidade, de ações reais que nos ajudem a viver melhor. 

Vou citar e traduzir parte do post de Sarah Sloan MacLeod em seu blog que resume muito do meu ponto de vista:

Sentir que você faz parte de algo pode ser reconfortante, bem como ver que outras pessoas se sentem do mesmo jeito que você. Quando você está nos estágios de cura de uma doença mental, ter apoio não é só importante – é uma necessidade. Mas a subcultura soft grunge não apoia as “Meninas Tristes”. Ela as idealiza e é permissiva.

Toda vez que você rebloga fotos de uma tela de computador que diz “garota triste e estúpida” ou cigarros Marlboro com post-its colados que dizem “porque você quebrou meu coração”, toda vez que você contribui a uma cultura que faz parecer que depressão é algo excêntrico para adicionar à descrição do seu perfil ao invés de um distúrbio sério com uma das maiores taxas de morte, você está ativamente permitido que as pessoas ignorem seus problemas de saúde e sejam apenas tristes. Isso é permissivo.

Esse assunto dá pano pra manga e eu provavelmente falarei mais dele no futuro. Mas por hoje, é só.

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6 comentários sobre “Eu tenho aquela tristeza de verão…

  1. Larissa, isso é uma coisa que os psicólogos inclusive se preocupam muito, pelo menos os que eu conheço formados na área. Eu conheço muitas meninas exatamente como essa que você descreveu, porque tenho muitas primas mais novas que acham até “bonitinho” ter depressão. Bom, eu tive depressão por N motivos, e sinceramente não consigo achar nada linda essa “glamourização” de uma doença séria. E essa propaganda ~positiva~ em cima da depressão infelizmente não se resume só à música, cinema e gifs do Tumblr. Basta dar uma olhadinha no Facebook e ver a quantidade de páginas “(insira aqui qualquer coisa) da Depressão”, e pode reparar que todas essas páginas são muito mais sobre mal humor do que a tristeza profunda que pessoas com depressão sentem a ponto de tentarem se matar mais de uma vez.

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  2. São realmente globais esses problemas, e é muito difícil para jovens de minha idade entender a realidade da vida e ter a visão do que realmente faz bem. Muitos se deixam levar e acabam adoecendo e expondo melancolia. Acabam encontrando pela internet pessoas que passam pelo mesmo e só aprofundando com isso que nada soma no viver.

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  3. Concordo e, ao mesmo tempo, discordo do post.
    Acho que no caso da Effy, a série, em si, é uma crítica, mas, infelizmente, há uma overdose de senso comum na sociedade que não enxerga isso e acaba colocando sempre a culpa na mídia. Quando esta, na verdade, também é da nossa ignorância que, geralmente, não questiona o próprio meio de vida e acaba aderindo a mídia (no caso, a série) apenas como um modo de entretenimento.
    Concordo plenamente com o argumento da sarah sloan, mas acho muito forte dizer que glorificamos as doenças, porque, afinal de contas, ninguém gosta de estar doente.
    Por outro lado, estamos cada vez mais doentes por causa da loucura da realidade que vivemos: temos que nos destacar na escola, serviço e até mesmo nos lugares onde a gente freqüenta para se divertir, como os bares, baladas etc. Quando falhamos em nossa missão de “brilhar pro mundo” cria um incomodo que chega até corroer (creio que seja por isso que muitas pessoas entram em depressão).
    Além disso, acredito que a doença também possa surgir com a finalidade de chamar atenção dos que estão a nossa volta. Não digo que os depressivos e afins finjam estar mal, mas acho que o nosso psicológico pode adoecer por falta de amor, compaixão e outros sentimentos. Uma pessoa sozinha não é feliz, todo mundo precisa de um pingo de compaixão, um porto seguro. Estar doente, portanto, pode ser uma maneira de avisar o próximo:”ó, eu to aqui! Preciso de você! Eu também tenho sentimentos”.
    Desculpe pelo texto enorme desse comentário, mas é que eu adoro discussões do tipo!
    Abraço

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  4. Concordo e discordo do post. Acho que o problema é muito mais profundo e complexo do que isso. Ouvir músicas sobre a dor, ler poemas, presenciar artistas que falem sobre coisas que você sente tão secretamente pode ajudar muito. Aliás, um jeito de superar tudo é perceber que sua dor pode fazer parte de algo maior: de um poema, de um romance, de um quadro, de uma música, de um filme… E olhar todos os artistas que fizeram da sua dor uma obra de arte belíssima , que transcende, que emociona, que torna a vida mais bonita, inspira muito. Por exemplo, eu acho a música “Requiem”, de Mozart, a música mais bonita que existe. Repito: a mais bonita que existe. Nela se exprime uma dor extremamente profunda e intrínseca — mas seria um desfavor para a humanidade se ela não existisse, e seria um absurdo se ela não fosse apreciada durante séculos e séculos até a atualidade. A questão é: existe sim beleza na dor, e as pessoas precisam saber disso. Sobretudo as pessoas em dor.
    Agora, é lógico que ver beleza na dor não significa se confortar com ela. Significa apenas amar uma parte da sua vida, por mais dura que ela tenha sido, e por mais que você queira se ver distante dela. Perceber que sua dor é importante e poética faz com que você se sinta, inclusive, menos mal e sozinha por está-la sentindo. Fica mais fácil de suportar.
    O problema é que, pra quem não tem depressão, a coisa muda de figura. Alguém que vê uma menina como a Effy sofrendo depressão e sendo tão amada por todos, tem a ilusão de que a depressão é algo que te aproxima de pessoas mais interessantes, o que é muito diferente da realidade. Admito que depressão pode até te tornar uma pessoa exótica, mas o exotismo é horrível de ser bancado, é um sacrifício que não vale a pena, é uma doença, e todos querem se livrar disso — mas pra quem apenas está vendo da vitrine, parece uma outra história. Então, aí vem o desejo de ser deprimido: mas o desejo não é pela tristeza, o desejo, na verdade, é de ser amado, de ser diferente, de ser destaque. E, pra quem só veste uma máscara de deprimido — e, portanto, não precisa passar por todas as mazelas que a depressão clínica proporciona –, essa vida de automutilação, ceticismo e melancolia é tudo de bom mesmo.
    A verdade é que a maior parte do público que se aproxima de pessoas deprimidas e melancólicas está procurando as pessoas que não são deprimidas “de verdade” (isto é, depressão clínica). Quantas vezes pessoas se aproximaram de mim porque tinham curiosidade, porque me achavam misteriosa, mas logo fugiram assim que puderam? A depressão clínica não é fácil pra ninguém.
    Além disso, existem os que acham super interessante as pessoas “deprimidas” (mas nunca são as deprimidas que realmente precisam de amor, atenção e carinho), existem os que acham ridículo as pessoas deprimidas (e aí não importa se é depressão clínica ou só fingimento). Portanto, as pessoas que se cortam, que choram “demais”, que estão paralisadas pela doença, são altamente julgadas. Na verdade, não tem escapatória: os deprimidos clínicos são sempre marginalizados, querem pelos que gostam da “depressão”, quer pelos que não gostam.
    O grande problema é esse: não é exibir a depressão, o problema é a falta de senso das pessoas, de perceberem que os deprimidos precisam de ajuda. Mas o que se nota é um egoísmo tão forte que, ao invés de uma mobilização e uma consciência por parte das doenças mentais, as pessoas querem se utilizar desse “exotismo” para que ELAS mesmas sejam mais queridas, amadas, idolatradas. Isso é o mais triste de tudo…

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