Uma pilha de coisas boas e ruins.

TW: suicídio.

 

Amy Pond: Não fizemos diferença alguma.

Doutor: Eu não diria isso. Do jeito que eu vejo as coisas, toda vida é uma pilha de coisas boas e ruins. As coisas boas nem sempre suavizam as coisas ruins – e vice-versa. Nem sempre as coisas ruins estragam as coisas boas.

{diálogo retirado de Doctor Who, do episódio Vincent and the Doctor}

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Hoje o mundo perdeu Robin Williams, que se suicidou. E eu poderia me demorar aqui falando sobre a importância da carreira dele, sobre a importância dos filmes dele – principalmente Patch Addams e A Sociedade dos Poetas Mortos… Mas acho que não sou eu quem precisa fazer isso. Existem outros blogs para isso, existem milhões de pessoas com memórias admiráveis sobre ele… Descanse em paz, Robin. Eu realmente espero que você tenha encontrado a paz que você procurava. Do fundo do meu coração. Obrigada por tudo.

Mais de um milhão de pessoas se suicidam a cada ano. A cada 100.000 pessoas, 16 se matam. Em média, uma pessoa se suicida a cada 40 segundos em algum lugar do mundo. Nos últimos 45 anos, a taxa de suicidas aumentou em até 60%*.

 Eu quase fiz parte dessas estatísticas. (pausa para respirar bem fundo). Duas vezes.

E eu me abro sobre isso porque se eu manter tudo para dentro, eu jamais poderei ajudar os outros. Se eu não expor o que aconteceu comigo, como posso esperar que os outros confiem em mim para que eu possa fazer algo?

Só quem já passou por isso conhece a angústia, o desespero. Não dá para respirar, não dá para pensar em outra coisa. Só quem já se encontrou nesse estado sabe como a vida pode ser cheia de escuridão. Viver se torna insustentável. As alternativas parecem se esgotar.

Quem diz que o suicídio é ‘a via mais fácil’ ou ‘coisa de covarde’ claramente nunca tentou se matar.

No fim das contas, é fácil se acomodar. É fácil viver uma meia-vida, levando tudo com a barriga. Não é fácil decidir terminar com tudo, romper com todas as coisas que você ainda ama e ainda considera preciosas. Não é fácil romper com a possibilidade de melhorar. Repita comigo: não. é. fácil. Não. é. fácil. Não. é. fácil.

Mas sabe o que é fácil?

Apontar o dedo na cara das pessoas. Ser babaca, ser insensível. Isso sim é fácil. Como eu já escrevi nesse post, todo mundo adora brincar de juiz. Não é preciso de muitos neurônios saudáveis para se achar melhor que todo mundo. Isso é contraproducente.

Eu comecei a apresentar os primeiros sinais depressivos aos onze anos. Tive momentos estáveis, momentos ruins, momentos péssimos, momentos horrorosos, momentos de vida ou morte. Eu estou nessa batalha há exatamente onze anos. E sendo sincera? Hoje eu posso dizer que tive sorte.

Só hoje, aos vinte e dois anos, estou estável o suficiente para conseguir viver minha vida de modo um pouco mais saudável. E mesmo assim existem momentos ruins. Ter depressão – ou qualquer outra doença mental – não é uma dorzinha de garganta. Não existe um antibiótico que você toma e puff, a dor desaparece.

É um processo lento e desgastante. Procurar ajuda e lutar contra essas doenças é tão exaustivo quanto conviver com ela em si. Você sente vergonha, você acha que vai conseguir superar sem ajuda, você se vê desconsiderado pela família e por alguns amigos, você perde toda a vontade de fazer o que você mais ama. Eu, que sempre amei estudar e escrever, quase repeti de ano e parei inúmeras vezes de escrever porque eu não via mais sentido naquilo.

Eu choro ao lembrar de como eu estava em maio desse ano. E eu choro mais ainda pensando em todas as outras pessoas que passaram o mesmo que eu e que não tem uma mão disposta a ajudar. Eu fico muito comovida quando me lembro que inúmeras pessoas não recebem tratamento adequado por conta de preconceito, de ignorância.

Vergonha de procurar um terapeuta, vergonha de ir a um psiquiatra, vergonha de conversar com os amigos, vergonha dos colegas de trabalho, vergonha dos familiares…

Eu quero que fique bem claro aqui que admitir que você está com algum problema e precisa de ajuda NÃO É MOTIVO DE VERGONHA. Ter depressão, transtorno alimentar, transtorno de ansiedade, transtorno bipolar, que seja: NÃO É MOTIVO DE VERGONHA. NÃO É UMA FRAQUEZA. NÃO É FRESCURA. Quem tem que ter vergonha aqui é quem te julga, quem piora a sua situação, quem não tem uma palavra de apoio pra te oferecer nem um ouvido pra te escutar.

E por mais que digam o contrário: quem se suicida não é covarde. Pessoas que estão deprimidas a ponto de terem pensamentos suicidas normalmente acreditam que estão fazendo um favor ao mundo, então não OUSE julgar isso como covardia. Se você nunca esteve nessa situação, agradeça. Vou repetir novamente: não é uma situação fácil.

Por fim, fico aqui me questionando… Apesar de mal ter postado nesse blog, ele me trouxe uma nova resolução de vida. Estou jogando muitas coisas para cima porque creio que encontrei minha vocação. Sim, vou ser psicóloga. Sim, vai ser um processo demorado e lento. Mas estou acostumada a esses processos.

Espero, do fundo do meu coração, que eu consiga adicionar algo de bom à vida das pessoas. Espero que eu consiga ser mais um tijolinho na pilha de coisas boas das pessoas que eu encontrar pela frente. Não gosto do conceito de “salvar vidas”, porque acredito na nossa autonomia individual. Mas anseio em tentar deixar algo de bom, a ser uma lembrança um pouco melhor na vida de tanta gente que sofre.

Foi a minha pilha de coisas boas que me ajuda todo dia a sair dos lugares ruins que meu coração frequenta. Só quem passou tanto tempo na escuridão sabe apreciar cada frestinha de luz que aparece.

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Um comentário sobre “Uma pilha de coisas boas e ruins.

  1. Amei. As pessoas tem dificuldade de se colocar no lugar dos outros. Isso é péssimo. A falta de empatia acaba dificultando muito o processo de recuperação de uma depressão, que é complicadíssimo. Toda vez que vejo pessoas julgando suicidas, ou pessoas com depressão, tento me meter e dizer os dados reais. Quem diz que vai se matar muito provavelmente tem a vontade. Ela idealizou, o que é o primeiro passo. Agora ela está tentando fazer com que as pessoas a façam mudar de idéia. Quando alguém faz isso, está querendo sim, chamar a atenção. Mas não para seu ego: para o problema. É um sintoma.
    Quando se passa dessa fase, a pessoa pode chegar a tentar. Tentativas que, por algum motivo, podem não dar certo, como tentar cometer o suicídio sabendo que alguém chegará em casa em breve. Essa pessoa ainda não desistiu completamente da vida, e cabe aos entes queridos e familiares demonstrarem apoio e compreensão. A pessoa está lutando contra algo extremamente difícil de ser combatido.
    Por isso, as pessoas tem que deixar de ter esse tipo de estigma. Que depressão e tentativas de suicídio são tentativas de inflamar o ego, de querer atenção. Aliás, porque querer atenção é algo ruim? As pessoas estão tão ocupadas, se perdendo em suas próprias rotinas que não podem olhar pra pessoa ao lado e perceber que ela precisa de ajuda?

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