Todos querem ser juízes.

Eu juro que eu tentei de todas as formas achar o autor dessa imagem. Se você encontrar, me avise para que eu dê os devidos créditos.

Eu tentei de todas as formas achar o autor dessa imagem. Se você encontrar, me avise para que eu dê os devidos créditos.

Trigger Warning*: suicídio.

Sempre que alguma celebridade se suicida, se inicia um exaustivo debate – principalmente nas redes sociais – sobre o assunto. Todos querem ser juízes mas nem todos sabem julgar de acordo com os dois lados do tribunal.

*Trigger Warning é uma expressão em inglês que pode ser traduzida como gatilho. Ao ler coisas sobre determinado tema, você pode acabar revivendo momentos e sensações ruins, causando um desconforto extremo. Utilizo aqui o TW para que você saiba o tema principal do texto e se preserve. Não vale a pena ficar mal por causa de um texto da internet. Sua saúde vem em primeiro lugar, gafanhoto.

A grande maioria das pessoas acredita firmemente que o suicida é um covarde. O que, no mínimo, não faz sentido. Infelizmente, é preciso uma força muito grande para tentar se matar. É uma pressão sufocante, uma força que te empurra para baixo. Não é nada fácil tomar essa decisão, muito menos colocá-la em prática.

O que precisamos entender é que todos temos autonomia para decidirmos o que quisermos. Não, eu não estou dizendo que se matar é legal. Não estou incentivando isso. Acredito muito que é possível viver melhor e de maneira mais saudável. É um processo longo e demorado, muitas vezes cheio de agonia e solidão. Entretanto, de nada adianta culpar o suicida. É preciso tentar entender as condições que o levaram a tal ato e principalmente respeitar o que já aconteceu.

Culpar a pessoa que se suicidou – ou que já tentou – é contraproducente. Apontar dedos cheios de julgamentos não levam a nada. Sim, eu sei que para família e amigos é uma situação extremamente delicada e cheia de luto e mágoa. Na hora da emoção, os sentimentos ficam à flor da pele e falamos coisas que nem sempre refletem nossa real opinião.

Como podemos evitar que isso aconteça?

Honestamente? Não sei se podemos. Como eu disse, todos temos autonomia para tomar decisões.

Nem sempre conseguimos evitar que a pessoa pule, mesmo que disponibilizemos todos os nossos esforços. Mas é preciso tentar. É preciso parar de olhar para o próprio umbigo e pensar um pouco mais no outro. Sim, podemos melhorar nossas ações para diminuir essa possibilidade.

Se você conhece alguém que está deprimido, não invalide esse estado. Não invalide esses sentimentos. Escute, apoie, ofereça alternativas. Respeite o espaço da pessoa. Mas procure se interessar, estenda a sua mão. Mesmo que o resultado não seja o que você esperou, pelo menos existiu uma intenção.

Por exemplo: são cada vez maiores os casos de adolescentes se matando devido ao cyberbullying.

Sim, talvez esses adolescentes já fossem deprimidos. Mas vamos concordar que o cyberbulling é algo sério e que deve ser combatido? Que tal começarmos ensinando às crianças e aos jovens que a aparência não determina o caráter? Que tal ensinarmos aos nossos filhos que se uma mulher decide expor seu corpo, ele não tem nada a ver com isso? Que um corpo nu é apenas um corpo, e não motivo para exposição, chacota e humilhação? Que tal ensinarmos que orientação sexual não é motivo para ofensas e violência? Que pessoas trans* também são dignas de respeito?

Ao mesmo tempo que tratamentos psiquiátricos podem ajudar alguém a se erguer novamente, os valores da nossa sociedade também precisam mudar. Assim, criamos pessoas um pouco mais saudáveis, mais confiantes. Podemos diminuir essas chances, esses números.

Por fim, gostaria de fazer um apelo: não, você não está em posição de julgar um suicida. Não, um suicida não é covarde. Se você nunca passou por isso, parabéns: você é privilegiado. Caso você não esteja a fim de compreender situações diferentes da sua, melhor ficar calado. E o que podemos fazer para criar uma sociedade um pouco mais saudável, que consiga diminuir os números de suicídios e de fato ter pessoas que vivem bem?

O mundo já está cheio de falsos juízes. Não seja um.

Anúncios

Um comentário sobre “Todos querem ser juízes.

  1. Excelente! Parabéns pelo texto, Lari! Vivemos em uma sociedade narcisista, que prega a glorificação do Eu a todo custo, e se uma pessoa foge dos padrões de produtividade por estar mentalmente adoecida, essa pessoa é condenada. Creio ser daí que parte todo esse julgamento tão pesado sobre aqueles que cometem ou tentam cometer suicídio. Ora, se o próprio depressivo já é julgado, considerado “preguiçoso”, “fresco”, “sem força de vontade”, ou seja lá quais forem as barbaridades por aí bradadas pelos “falsos juízes”, como você traz, imagine o suicida. Esse é “egoísta”, “não pensou na família”, “não pensou nos que ficariam para trás e sentiriam sua falta”… Mas esses que condenam e abrem a grande boca para falar essas coisas são os mesmos que “não pensaram” no suicida, não se preocuparam em compreendê-lo ou ajudá-lo de alguma forma realmente eficaz. Falta empatia pelo “doente” mental, pois quando não consigo empatizar, quando não sou capaz de me colocar no lugar do outro, é muito fácil, é quase compulsório condená-lo. Falta uma maior difusão de informações acerca do tema, mas quem é que vai querer mexer na ferida e falar sobre um assunto que ainda é um tabu muito grande? Nesse sentido, te parabenizo mais uma vez pela iniciativa do blog. Continue com esse projeto, leve-o adiante, pois tenho certeza que vai trazer grandes contribuições. ❤

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s