Distúrbios de Ansiedade são reais e sérios

Tradução autorizada do texto original de s.e. smith, publicado em seu site meloukhia.net em 29 de abril de 2013. Nota: este post discute de maneira gráfica ataques de pânico.

Condições de saúde mental em geral parecem ser algo que a maioria das pessoas tem dificuldade em entender. Para aqueles que não sofrem de doenças mentais, compreender algo que não é obviamente físico é desafiador, mesmo quando encaram as evidências de que essas condições mentais podem ter efeitos fisiológicos; as doenças mentais são ‘algo dentro da sua cabeça’ e isso dificulta a compreensão das pessoas. Uma perna quebrada é algo que você consegue ver, avaliar e consertar. Um cérebro que funciona de modo diferente pode manifestar sintomas, pode ter resultados diferentes em exames cerebrais, mas não é algo tão claro e óbvio quanto uma perna que está num ângulo que não está correto, ou uma lesão medular que dificulta o caminhar.

As pessoas tendem a desconsiderar doenças mentais, e um caso onde isso fica muito claro é com distúrbios de ansiedade, que são comumente vistos como algo que só está na cabeça do paciente e não é real. A seriedade dos distúrbios de ansiedade não é compreendida, e são vistas como algo que as pessoas superam ou são capazes de controlar; observadores não entendem o que é ter fobias graves, ansiedade social ou outras condições associadas com a ansiedade crônica. Eles não aceitam o fato de que, para algumas pessoas, essas condições podem causar sérios prejuízos.

Por quase dez anos, me afastar por mais de 32 km da minha casa era quase impossível. Não no sentido que eu ficaria com uma ansiedade e preocupação extrema (minha casa vai pegar fogo enquanto eu estiver fora, um terremoto vai acontecer, alguém vai invadir, será que eu deixei o fogão ligado, será que eu tranquei as portas, será que minhas prateleiras de livros vão cair e esmagar um dos gatos, será que o responsável por alimentar os gatos vai deixá-los fugir sem querer…), mesmo que os dois sentimentos eram frequentes; mas eu ficava fisicamente doente. Eu ficava com tremores e suava frio. Minha visão ficava turva, meu coração batia mais rápido, caminhar se tornava difícil, e a vontade de ir ao banheiro aumentava. Eu vomitava continuamente – por anos, as pessoas achavam que era só muita náusea por conta do movimento do carro, e eu nada fazia para dissipar essa ideia porque eu tinha vergonha do fato que a doença estava plantada no meu cérebro.

Só escrevendo livremente sobre a superfície do que eram meus ataques de pânico já está me fazendo cerrar o maxilar e me arrepiar. Me dá náuseas lembrar disso. Chegou ao ponto que pensar em viajar me deixava com uma ansiedade tão grande que eu fazia questão de desviar de qualquer conversa que chegasse nesse assunto. Quando eu realmente precisava viajar por alguma razão, minha ansiedade ficava atacada dias ou até semanas antes. Nas noites anteriores à viagem, dormir era impossível, e eu me deitava na cama suando frio, tremendo, levantando de hora em hora para vomitar. Durante o vôo, eu mal me mexia na cadeira, com os olhos marcados pelas olheiras.

Sair de casa era um tormento para mim. Era um tormento físico e emocional. Eu tinha ataques de pânicos tão graves que eles limitavam minha habilidade de participar da sociedade, de sair com meus amigos, de visitar pessoas; um amigo se mudou para uma cidade distante e eu não o visitei por anos porque eu sabia que meu corpo não aguentaria a viagem. Eu teria que dirigir até a cidade, e então entrar num avião, e então estar num lugar estranho. Eu seria uma bagunça trêmula, agitada e horrível o tempo todo.

Eu tinha uma doença mental séria. E eu tinha vergonha disso. Eu tentei disfarçar o máximo que pude; eu já tinha a desculpa perfeita para não viajar, para não visitar os outros, para ter passado tão mal num trajeto de carro, porque eu ficava em silêncio profundo quando ia à cidade com outras pessoas. Havia sempre uma boa razão, uma boa fachada. As pessoas não tinham ideia do que eu aguentei porque eu não queria que zombassem de mim por isso, e porque eu sentia que isso era ridículo, que eu não deveria ‘permitir’ que o meu cérebro me controlasse tanto, porque eu não entendia como distúrbios de ansiedade funcionavam, e eu não entendia ataques de pânicos. Eu não entendia que isso era algo que fugia do meu controle.

E então eu consegui me tratar, e comecei a tomar remédios. Comecei a viajar. Comecei a experimentar a animação ao invés do nervoso. Eu inventava desculpas para ir até a cidade, eu apreciava viagens de avião para novos lugares – como eu fazia quando eu era criança. Eu ainda tenho ataques de pânico – é algo que jamais vai sumir, mas eles tem outras raízes, e consigo gerenciar isso com mais eficiência agora, com tratamento e ajuda e me abrindo com as outras pessoas. Os meus ataques ainda são sérios, e um ambiente pode se transformar de ótimo para radicalmente inseguro para mim num piscar de olhos, mas essa não é mais uma tarefa solitária.

O problema é que, ao mesmo tempo que as pessoas agem como se os distúrbios de ansiedade não fossem grande coisa e que a gravidade dos ataques de pânico é exagerada. Elas claramente nunca vivenciaram nenhuma dessas coisas, e reproduzem apenas conceitos específicos e superficiais sobre doenças mentais. Muitos desses conceitos partem de quem já teve experiências com esses distúrbios, porque somos socializados a termos vergonha de nossas condições e a enfrentar tudo com panos quentes ao invés de mostrar aos outros a realidade. Acabamos reforçando esses conceitos superficiais de ‘eu tinha ataques de pânicos mas superei/eles não eram grande coisa’. Consequentemente, as pessoas pensam que um ataque de pânico é algo que você simplesmente pode superar com esforço, e eles não entendem o quão debilitante pode ser.

Só escrever esse texto já é difícil para mim; estou tremendo, meu maxilar está cerrado. Meu estômago está se retorcendo um pouco. Falar sobre ataques de pânicos é, para alguns, um ótimo jeito de causar um. Isso demonstra o quão frustrantes e ilógicos eles são. Você acha que isso é algo que escolhemos para nós mesmos? Você acha que gostamos disso? Você acha que queremos ou gostamos da atenção? Você acha que todos nós pensamos que é ótimo que simplesmente não conseguimos participar da vida social como todo mundo?

Acredite em mim, se existisse uma pílula que garantisse que eu jamais tivesse um ataque de pânico novamente, eu tomaria na mesma hora – mas ela não existe. Então, por enquanto, eu preciso que o mundo leve esses ataques a sério e entendam que distúrbios de ansiedade são reais e tem consequências muito sérias, e que pessoas que sofrem com isso tem necessidades diferentes.

Algumas dessas necessidades podem parecer bizarras a você, mas isso não faz com que elas sejam inválidas.

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