Batalhas Silenciosas

Ah, mas você não me parece deprimido.
Ué, mas você estuda e trabalha, isso não é depressão. É só cansaço.
Você é gorda! Como assim você tem um distúrbio alimentar? Se você tivesse mesmo, seria magra.
Isso não é distúrbio bipolar! Isso é TPM sua, vontade de aparecer.
Mas eu te vi rindo com seus amigos outro dia! Gente deprimida não fica rindo à toa.
 
O que muitas pessoas falham em entender é que nem sempre as doenças mentais são visíveis. Nem sempre as nossas tempestades ficam estampadas na nossa cara. Não existe um panfleto que guia como devemos nos comportar quando nossa mente adoece. Sim, existem sintomas comuns a todos, mas algo que eu sempre quero ressaltar é que cada caso é um caso. Existem pessoas extrovertidas que são deprimidas – e aí? A depressão dessa pessoa é menos séria por isso? Ah, eu consigo trabalhar e estudar – mesmo que seja a trancos e barrancos – então isso anula todas as minhas outras dificuldades?
 
Não, não anula. Muitas vezes, nossos pais, amigos e familiares não conseguem entender o que é ter algum distúrbio mental. É sempre mais fácil procurar uma explicação mais amena do que assumir para si próprio que aquele ente querido sofre.
 
Ter algum tipo de doença mental é estar em batalhas silenciosas. Quantas vezes já não escondemos o que sentimos para não preocupar o outro? Para não chamar a atenção? Quem aqui nunca sorriu quando na verdade queria chorar? Isso, infelizmente, é comum. Principalmente quando o seu círculo próximo não é compreensivo.
 
Ao mesmo tempo que as pessoas parecem ter estereótipos muito formados, quando algum sintoma fica visível, voltam a esconder a sujeira debaixo do tapete. Por exemplo: uma das primeiras coisas que fica deficiente quando você tem depressão é a sua higiene pessoal. Nem sempre as pessoas entendem isso como um sintoma – mas sim como sinônimo de preguiça e desleixo. É mais conveniente acreditar que o fulano é desleixado do que entender que aquilo faz parte de uma doença séria. É mais fácil culpabilizar a pessoa, dizer que ela é preguiçosa e desinteressada do que medir as palavras.
 
Aliás, taí algo que a sociedade gosta muito de fazer: nos culpabilizar. Se você tem depressão, a culpa é sua. Você que não sabe amar, você que tem personalidade ruim, você que não sai de casa, você que ouve música do demônio, você que não arranja um emprego, você que é ocioso. Se você tem algum distúrbio alimentar, a culpa é sua por você ser fútil, é frescura, não tem o que fazer e fica aí pensando em besteira, você está imitando a fulaninha da novela…
 
Não, gente. Isso é errado. Pensar assim é errado. Eu falo sobre depressão com mais propriedade porque é o que eu passo, mas pra vocês entenderem: eu demorei dois anos pra arranjar um emprego. Dois anos. Com inglês fluente, fazendo faculdade, sendo considerada ‘inteligente’. Eu simplesmente não conseguia arranjar emprego. Na hora da entrevista eu mal falava, não conseguia ser coerente, tremia. Antes de chegar lá eu já tinha chorado umas três vezes. Não faz sentido culpabilizar o doente por não conseguir fazer algo. Só o fato dele não conseguir fazer já mostra a doença ali, se manifestando.
 
Isso não é frescura, gente. Estamos falando de condições psicológicas que nos impedem de fazer inúmeras coisas, das mais simples às mais complicadas. Desde levantar da cama até ter um relacionamento saudável.
 
E aí falam que “é só tentar”. É muito simples uma pessoa rica e privilegiada dizer ao pobre que é só ele estudar e trabalhar pra ter boas condições de vida. É muito simples uma pessoa que nunca teve algum problema psicológico sério apontar pra quem está deprimido e dizer que basta tentar. Ninguém está ali por opção, ninguém está ali porque é prazeroso. Ficamos presos em condições que não nos permitem levantar. Nem sempre é fácil ser maior que tudo isso. (Por isso, se você conseguiu levantar da cama hoje: parabéns!)
 
É de uma insensatez enorme apontar o dedo para alguém que está nessas condições e dizer que ele não está se esforçando o suficiente. Como medimos o esforço? O que pode ser um esforço enorme pra mim não é o mesmo para você. Eu entendo que não é fácil ver aquela pessoa que amamos presa na cama e presa num vazio enorme, mas escolher as palavras é essencial. Apoie, entenda, tente conversar se a pessoa estiver disposta a isso. Exigir de nós coisas que nem sempre podemos entregar não ajuda na nossa recuperação – apenas a atrasa, apenas nos deprime mais.
 
Vou terminar esse texto com uma citação que vi no Tumblr:
 

Quando você está lutando contra uma doença mental, você está travando uma batalha silenciosa. Ninguém vê o quanto você está lutando o tempo todo. Ninguém mais sabe a dor e a turbulência interna como você. Você deveria se orgulhar, mesmo quando acha que está falhando. Eu acredito que todo mundo que luta contra uma doença mental merece uma Medalha de Honra, porque essa luta é real e mais difícil do que a maioria das pessoas acham. (original)

 
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