29 de Janeiro: Dia da Visibilidade Trans.

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Como o título sugere, hoje é o Dia da Visibilidade Trans. Um dos meus objetivos nesse blog é derrubar certos preconceitos em várias áreas – e não posso esquecer da transfobia. Eu só não falo mais sobre esse tema porque, como vocês já podem ter percebido, eu prefiro escutar o que as pessoas trans tem a me dizer do que pesquisar meia dúzia de coisas na Wikipédia e escrever um texto. Tanto que esse é um dos poucos parágrafos que escreverei hoje. Vou deixá-los com um monte de links que falam sobre a transexualidade: sejam textos, vídeos, referências de transfeministas e artistas trans no geral. Afinal de contas, hoje é o dia da Visibilidade Trans.

  • Se você tem pouco ou nenhum conhecimento sobre transexualidade, antes de tudo sugiro que você siga a Daniela Andrade no Facebook. Ela é inteligentíssima e escreve como ninguém sobre a condição das mulheres trans no Brasil. O Canal das Bee tem um vídeo no qual a Daniela fala bastante sobre como a saúde pública encara as mulheres trans. O discurso dela é muito poderoso e vale a pena ler e escutar cada palavra.
  • A Revista Capitolina tem inúmeras matérias sobre o assunto – inclusive artigos muito bons falando de transexualidade na infância e na escola. Vale muito a pena conhecer e entender esse lado, para acolher cada vez mais crianças trans – e não impedi-las de ter uma infância e adolescência felizes no ambiente familiar e escolar. Afinal de contas, é assim que a mudança começa: com nossos filhos, na escola.
  • Leelah Alcorn tornou-se símbolo contra a transfobia ao cometer suicídio no fim de 2014. Ela deixou uma nota emocionante em seu Tumblr, inclusive mencionando que seus pais exigiam que ela fosse em terapeutas cristãos* que em nada ajudaram a lidar com sua depressão, inclusive piorando seu quadro. Aqui você consegue assinar uma lei norte-americana chamada Leelah’s Law, que proíbe as terapias de conversão em pessoas LGBTQ+. Ok, a lei vale pros Estados Unidos, mas eu acredito que não custa ajudar.
  • Falando de leis, é imprescindível que a Lei João Nery seja aprovada – ela assegura o direito à identidade de gênero. Você pode ler o projeto de lei aqui.  João Nery é psicólogo, tem 64 anos e é considerado o primeiro homens trans operado do Brasil. Veja aqui uma entrevista com ele e conheça mais!
  • A Maria Clara Araújo foi aprovada em Pedagogia pela UFPE na primeira chamada do Sisu. O que isso tem a ver? Ela é uma mulher trans e nessa matéria fala bastante sobre sua experiência.
  • Muitas pessoas usam o asterisco para se referir às pessoas trans: mas esse texto esclarece essa questão.
  • Nos Estados Unidos, Laverne Cox foi a primeira mulher trans a ser capa da TIME Magazine. Além de fazer parte do seriado Orange is the New Black – onde interpreta Sophia, ela está se destacando cada vez mais como atriz e ativista. Infelizmente os melhores vídeos dela discursando não tem legendas em português, mas essa entrevista para o site LadoBi está sensacional.
  • Janet Mock lançou o livro Redefining Realness (que infelizmente ainda não foi traduzido para o português), que fala sobre sua vida como mulher trans, além de ter sido contratada para escrever na Marie Claire americana.
  • A Prefeitura de São Paulo lançou o programa Transcidadania, que oferece suporte e qualificação profissional a travestis e transsexuais. Dá pra saber mais aqui e ver como esse programa está sendo aplicado nessa matéria do iGay.
  • O site Blogueiras Negras conta um pouco da história de 5 mulheres negras que abriram o caminho.
  • Jaqueline Gomes de Jesus escreveu um ótimo texto no site Blogueiras Feministas sobre privilégio cisgênero (e consequentemente rever esse privilégio)
  • Também no Blogueiras Feministas, Andreia Lais Carelli escreveu sobre como a sociedade torna as pessoas trans invisíveis e marginalizadas.
  • O blog Batatinhas é dedicado a falar sobre identidades não-binárias – e é extremamente importante entendermos que não existem apenas homens e mulheres trans, e sim que a identidade de gênero é fluída e pode assumir muitas formas.
  • A artista trans curitibana Raine Holtz lançou hoje no Kickante seu projeto de crowdfunding do novo álbum “Confluence – The Rivers of Sorrow”. A música de Through Waves é algo fora desse mundo, e vale muito a pena apoiar essa iniciativa tão bela. Para mais informações, curta a página no Facebook.

Espero que esses links ajudem de alguma forma a abrir a cabeça de algumas pessoas, a entender que transexualidade não é doença e que essas pessoas devem ser respeitadas e incluídas na nossa sociedade.

*Quando me refiro a terapeutas cristãos, me refiro aos ‘profissionais’ que trabalham em cima da própria religião e não adotam uma postura neutra na hora de clinicar. Para um exemplo brasileiro, pensem na Marisa Lobo. Eu repudio esse tipo de postura profissional e essas “terapias de conversão” deveriam ter sido banidas há muito tempo atrás.

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Não minimize a depressão de ninguém.

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Cena da série Six Feet Under.

Esse é o tipo de coisa que eu vou morrer repetindo. Vou repetir sem cansar, porque tem tanta gente que não conhece o assunto, que não tem empatia nenhuma.

Respirem fundo e repitam comigo: SAÚDE MENTAL É COISA SÉRIA. SAÚDE MENTAL É COISA SÉRIA. SAÚDE MENTAL É COISA SÉRIA E PRECISA SER TRATADA, SEJA DO JEITO QUE FOR.

Antes de alguém achar que é frescura, eu vou trazer um trecho de um artigo que fala sobre depressão e doenças cardiovasculares (mas o que realmente eu vou focar aqui é a depressão, obviamente). Você pode ler o artigo na Scielo aqui. Aliás eu até acho ótimo que esse artigo trata sobre doenças cardiovasculares, porque eu quero esfregar na cara de todo mundo que acha que “é só frescura” e “não é doença de verdade”. Inclusive ele vem com métodos de pesquisa e resultados. Vem comigo:

A Organização Mundial da Saúde (OMS) cita a depressão e a doença cardiovascular como duas das condições mais debilitantes e dispendiosas no contexto da saúde, sendo essas doenças crônicas as enfermidades de maior impacto sobre a qualidade de vida do indivíduo (Oliveira Jr, 2005). A depressão é indicada pela OMS como a quinta mais freqüente doença na saúde pública (Tamai, 2003).

(…)

Estima-se que a doença arterial coronariana (DAC) e a depressão maior serão em 2020 as duas principais causas de morte (World HeaIth Organization, 2001)

(…)

Pesquisas recentes indicam que a depressão não tratada adequadamente é considerada tanto um fator de risco para o surgimento do infarto agudo do miocárdio (IAM), como fatr de pior prognóstico, aumentando sensivelmente a morbidade e a mortalidade (Tamai, 2003)

(…)

Outro estudo, no qual pacientes cardiopatas com história de sintomas depressivos foram comparados com pacientes não deprimidos, concluiu que o risco relativo para os depressivos sofrerem um evento coronariano é comparável ao risco da obesidade, sendo um pouco mais baixo que o hábito de fumar (The American Psychosomatic Society , 2004).

(…)

Em suma, o presente trabalho sugere que os transtornos de depressão não são desencadeados pelo IAM, mas que estavam presentes antes da admissão hospitalar, enfatizando a importância da detecção precoce e do diagnóstico adequado para o planejamento de intervenções efetivas nesta condição extremamente prevalente.

Não sou eu, Larissa, estudante e publicitária e professora de inglês, que estou afirmando essas coisas. Foram pessoas que fazem parte do Instituto de Cardiologia do Rio Grande do Sul. Ou seja: fica claro que uma depressão mal tratada desencadeia sim alguma doença física –  é um fator de risco para o infarto agudo do miocárdio, por exemplo.

Mas minha pesquisa não para por aí. Eu decidi não colocar minha opinião pessoal porque aparentemente depoimentos de pessoas que sofrem com isso não são levados a sério. Então vamos lá.

O artigo da Dra. Kathy Hegadoren, que é ph.D e especializada em distúrbios relacionados aos stress em mulheres e que também dá aulas na University of Alberta com um resumo disponível em português e texto original em inglês, nos fornece mais detalhes interessantes.

A depressão é um grave problema de saúde global. Ela cria um enorme fardo econômico na sociedade e nas famílias e têm grave e penetrante impacto na saúde do indivíduo e de suas famílias. Serviços psiquiátricos especializados são muitas vezes escassos e, portanto, a maior parte da prestação de cuidados em depressão ficou sob a responsabilidade dos prestadores de cuidados primários (…)  Considerando que a depressão é um transtorno de espectro heterogêneo, há necessidade de atenção tanto para os detalhes de sua apresentação clínica, bem como dos fatores contextuais.

Podemos ver essa situação claramente definida no Brasil. Encontrar um especialista bom através de sistemas públicos é bastante complicado e muitas vezes frustrante. Lembram meu post sobre o Coral Cênico dos Cidadãos Cantantes? No podcast que está disponível, você escuta o relato de uma pessoa que foi diagnosticada com esquizofrenia… numa consulta de SETE minutos através de um hospital público. SETE minutos. Pra diagnosticas ESQUIZOFRENIA, que é uma doença muito, mas muito complicada. Existem também inúmeros relatos de atendimentos ruins na área de psicologia e psiquiatria nas redes de hospitais públicos, é só dar uma pesquisada, como nessa entrevista da psiquiatra Ligia Florio para a Folha de São Paulo:

Luciana: não há serviços públicos de psicoterapia para neuróticos ou normóticos, apenas para psicóticos ou para especiais, não seria mais econômico para todo o sistema de saúde atender em psicoterapia essa população?

Ligia: as dificuldades são muitas, existe a terapia comunitária, os atendimentos em UBS, mas o número de pessoas que necessita é absurdamente maior que o número de profissionais disponíveis nos serviços. (…)  Existe um comportamento de que a doença pede cura, mas no caso dos diagnósticos em psiquiatria usamos os transtornos, porque as alterações mentais e de comportamento não possuem um fator etiológico único. Os transtornos psiquiátricos têm graus variáveis de fatores sociais, culturais, biológicos e psicológicos. (…) Em psiquiatria os transtornos são muito disfuncionais, quase ou até incapacitantes, com características sindrômicas. A necessidade de explicar e resolver favorece a criação de diagnósticos que antes eram apenas sintomas em psiquiatria.

Mas calma, a minha pesquisa não parou por aí. “Ah, mas você é jovem! Deveria sair e não ficar preso num quarto! Isso é frescura”. Muito bem. Agora eu trago um artigo de Marcia Manique Barreto Crivelatti; Solânia Durman e  Lili Marlene Hofstatter (dá para saber onde elas trabalham e pesquisam no link) que derruba essa sua teoria babaca.

Os adolescentes se deparam com várias situações novas e pressões sociais, favorecendo condições próprias para que apresentem flutuações do humor e mudanças expressivas no comportamento. Alguns entretanto, mais sensíveis e sentimentais, podem desenvolver quadros francamente depressivos com notáveis sintomas de descontentamento, confusão, solidão, incompreensão e atitudes de rebeldia. Esse quadro pode indicar depressão, ainda que os sentimentos de tristeza não sejam os mais evidentes (…) Os indivíduos que sofrem de depressão experimentam um grau profundo de tristeza aparentemente não relacionada com estímulos externos e por longo período.

Eu vou abrir mais uma citação desde mesmo artigo e quero que vocês prestem muita, mas muita atenção nele.

Torna-se nítida a falta de conhecimento sobre a doença, conforme depoimentos a seguir.

Não sei. Pra mim depressão é isso, essa vontade de comer e de dormir que eu sinto o dia inteiro […] (Entr.1).

Não sei nada sobre a depressão […] pra mim depressão é uma coisa boa (Entr.2).

Não sei te dizer o que é depressão, acho que é uma doença (Entr.3).

Eu não sei dizer ou explicar o que é depressão (Entr.4).

Esta ausência de conhecimento está relacionada ao desinteresse pelo tema, falta de orientação pela equipe de tratamento, incompreensão das alterações provocadas pela doença no organismo, não acesso à bibliografia específica, dificuldades em entender termos técnicos da área da saúde. A desinformação é um fator que influência na adesão ao tratamento, predispondo o adolescente ao agravamento do seu quadro clínico. (…) Muitos conflitos familiares ocorrem porque a família acredita que as atitudes do adolescente são contra seus parentescos, interpretam a conduta do adolescente como de rebeldia e indisciplina, não percebem que este comportamento decorre da oposição aos princípios de vida respeitados no grupo. Os pais tendem a misturar tendências educacionais modernas e tradicionais, e acabam sendo contraditórios e confusos em suas atitudes deixando os adolescentes inseguros.

Vocês lembram o que os pesquisadores do primeiro artigo sobre as doenças cardiovasculares concluíram? Vamos recapitular:

(…)os transtornos de depressão não são desencadeados pelo IAM, mas que estavam presentes antes da admissão hospitalar, enfatizando a importância da detecção precoce e do diagnóstico adequado para o planejamento de intervenções efetivas nesta condição extremamente prevalente.

 Eu mostrei poucos artigos que comprovam a necessidade de falar, discutir e expor de maneira clara a saúde mental e seus inúmeros transtornos e o quanto eles podem atrapalhar a vida de alguém. Existem MILHARES de outros artigos que comprovam a mesma coisa: depressão não detectada cedo ou que não é tratada podem trazer INÚMEROS problemas para a saúde e vida da pessoa. E eu sei disso muito bem. Sabe por que?

Eu fiquei dois anos sem arranjar emprego porque eu não conseguia ir às entrevistas sem ficar altamente deprimida e ansiosa. Isso porque eu sempre fui uma aluna exemplar, falava inglês fluente desde os 17 anos.

Eu já tive mudanças de humor drásticas e uma delas poderia ter causado a minha morte em outubro do ano passado.

Eu não conseguia sair de casa, eu não conseguia viver a minha vida por causa disso. Eu perdi uma adolescência INTEIRA por causa de crises depressivas.

Até hoje eu tenho problemas para dormir, problemas para confiar nas pessoas, problemas em deixar qualquer pessoa realmente se aproximar de mim e me conhecer por inteiro. Tudo isso porque as situações ao meu redor desencadearam algo que sempre esteve dentro de mim e que estava dormindo.

Até hoje eu vivo dias em que eu acho que eu não deveria ter nascido, que eu sou um lixo, e trocentas outros insultos que eu repito para mim mesma.

A sua ignorância não vai anular a minha vivência, nem a de tantas outras pessoas que sofrem disso. É muito fácil ser estável, conseguir reagir de maneira adequada às merdas que a vida te joga. Você aí não tem propriedade alguma para falar sobre a onda que te afoga, o fogo que te queima por dentro, a terra que te joga para baixo, o ar que congela os seus ossos.

Se você passasse um dia vivendo a nossa vida, eu quero ver você dizer que eu devo expor esse lado da minha vida rindo, que passa rápido, que é frescura, que não deve ser levada a sério. Isso não é uma “gripezinha”. Eu não falto no trabalho um dia, fico na cama e pronto.  Eu passo DIAS na cama, eu NÃO arranjo emprego, e os remedinhos que eu preciso tomar custam muito mais que um benegrip da vida.

Eu só consegui ter uma vida mais saudável e produtiva quando eu comecei a me tratar e a entender minha situação e tomar as providências necessárias. Ainda tenho crises, ainda tenho períodos de desânimo total. Mas eu levo minha saúde mental completamente a sério, porque se outubro me fez aprender algo, é que se eu não cuidar do que acontece na minha mente, eu morro.

Agora eu desafio qualquer um a olhar na minha cara e falar que depressão é frescura. Vamos lá. Eu quero ver quem ousa tentar.

Seja um aliado.

A Helping Hand, de TheBoyofCheese @deviantArt

A Helping Hand, de TheBoyofCheese @deviantArt

Lembrete amigo: esse texto fala das MINHAS experiências e da MINHA percepção. Não sou psicóloga nem dona da verdade. Não o leve como verdade universal.

Uma das coisas que as pessoas me perguntam bastante através da página do blog é: “tenho uma pessoa próxima com problema x. Como eu faço pra ajudar?”

Eu nunca sei direito como responder essa pergunta, porque respeito e entendo muito a individualidade. Eu demorei anos pra aprender a pedir ajuda. Quando estamos chegando perto do precipício, é extremamente difícil assumir que precisamos de uma mão amiga. Primeiro porque é comum pensarmos que é besteira, que é uma fase, que logo passa. Segundo, porque tem sempre aquele babaca que fala todas as coisas erradas, que não nos compreende – e nem tentam. Existe o medo de ser julgado, ostracizado. Poucas coisas nessa vida são piores do que ter a coragem de se abrir e receber nada além de palavras rudes e falta de compreensão.

Digamos que a pessoa realmente se abra e conte o que está acontecendo. A primeira coisa que você tem que fazer é escutar o que a pessoa te fala. Observar o comportamento. Respeitar os sentimentos da pessoa – eles são totalmente válidos. Não tente encher a pessoa de conselhos óbvios.

Não é fácil lidar com pessoas assim. Eu sei. Mas dá pra tentar. Dá pra tentar mudar, dá pra tentar medir as palavras, dá pra tentar entender o caso da pessoa. Principalmente se a pessoa explica de maneira clara sobre o que faz mal para ela, o que serve de gatilho para crises. Por exemplo: se eu chego para você e digo que pessoas gritando me perturbam, o que você pode fazer por mim? Evitar gritar comigo. Sabe, certos comportamentos são simples de mudar. Não é preciso saber física quântica. Existem coisas pequenas que você pode fazer pela pessoa querida que podem ajudar demais a sua convivência. Tente entender a necessidade da sua pessoa querida. Nem sempre a gente precisa de mil conselhos, de mil palavras inspiradoras. Às vezes, a gente só precisa saber que tem alguém torcendo pela gente. Que alguém nos quer bem. Que alguém está disposto para nos escutar. Que podemos confiar em alguém, que se preocupam.

Seja depressão, seja borderline, seja transtorno alimentar, seja síndrome do pânico… São batalhas diárias. Todos nós temos algo dentro do nosso coração que diz que não somos bons o suficiente, que somos imprestáveis e inúteis, que a vida não vale a pena. Você, pessoa próxima, não deve ser mais uma voz contra nós. Tente estar junto – mesmo quando isso significa respeitar certas decisões, respeitar nosso espaço. É necessário paciência e calma? Sim. Como eu disse no parágrafo anterior, não é fácil lidar com pessoas que sofrem de coisas que não entendemos ou não vivenciamos. Mas se você gosta da pessoa – nem que seja 5% – você verá que é fácil ajudar, nem que seja nas coisas pequenas. Eu digo isso por experiência própria – eu já sobrevivi inúmeras vezes por contas de ajudas pequenas, aquela palavrinha simples que me ajudou a ser forte só por mais uma noite.

Pesquise em fontes confiáveis sobre o que a pessoa passa. É depressão? Pesquise sobre isso. Escute relatos. Leia experiências. Tudo isso pode te ajudar a entender o que estamos vivendo, sem que necessariamente a gente se abra. Reitero o que disse: não é tarefa fácil se abrir e falar sobre os próprios sentimentos. Existem momentos extremamente confusos que nem a gente entende o que está acontecendo. Tudo acontece como uma onda que nos leva até o fundo do mar, e às vezes estamos incapazes de nadar. Precisamos saber que se nadarmos até a praia, teremos alguém nos esperando. Eu tenho muita sorte de ter amigos e conhecidos maravilhosos. Eles são minhas pessoas na praia. E eu não consigo colocar em palavras o quanto eu sou grata por cada palavra, por cada gesto. Eu não esqueço essa ajuda.

Existe um livro chamado The Art of Comforting e ele tem dicas extremamente úteis. Traduzi e adaptei alguns exemplos de páginas que estão nesse post do tumblr para você ver que é fácil ter um pouco mais de compreensão.

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Para 2015, seja um aliado. Tente compreender, escute o que falamos. Esteja lá para nos ajudar. Palavras e ações machucam muito, e com coisas pequenas você consegue sim deixar nossa vida um pouco mais fácil.

Seja um aliado e não mais um algoz.

É preciso ter calma.

"Eu estarei melhor amanhã!"

“Eu estarei melhor amanhã!”

Se tem uma coisa que eu aprendi nesses anos é que pedir ajuda é mais difícil do que sofrer sozinha. Teoricamente, não deveria ser assim, mas é.

Uma pergunta que me fazem sempre é: se eu estava tão mal durante minha adolescência, por que eu não contei a ninguém? Por que eu me mantive quieta e sem apontar o que eu realmente sentia?

A resposta é fácil e completamente compreensível: quando você se abre e conta os seus problemas, as pessoas te julgam. Te entendem errado. Diminuem o seu problema. Não fazem esforço para entender. Culpam qualquer outra fonte externa ao invés de tentar compreender o que está acontecendo.

E nunca mais te olham da mesma forma. Você se torna “o problema”, “a problemática”, “a insuportável”, a “pessoa que veio no mundo pra arruinar a nossa vida”. A desumanização toma conta desse relacionamento, e você é vista pelos problemas que você tem, ao invés da pessoa que você realmente é. Escrevi extensivamente sobre isso no post “Eu não sou a minha depressão”, então vale a pena a leitura.

Ok. Digamos que você assumiu que as coisas não estão bem e que você não está conseguindo cumprir as tarefas básicas do seu dia-a-dia. As pessoas do seu lado apoiam a sua iniciativa de procurar ajuda – seja com terapia ou com tratamento psiquiátrico.

Esse primeiro passo é sempre assustador. Ir numa sessão de terapia pela primeira vez pode ser bem confuso – e não é todo mundo que se sente bem o suficiente para continuar. Aí vai de cada um, e longe de mim julgar. Cada pessoa tem a sua necessidade.

Tá. Dei o primeiro passo. E agora?

Uma coisa que eu aprendi da pior maneira possível é que problemas que envolvem nossa mente não são resolvidos de um dia pra outro. É preciso ter calma. Sim, eu sei que todos nós queremos nos ver livres daquilo o mais rápido possível, mas infelizmente não funciona assim. Quanto mais cedo você perceber isso, mais tranquilas as coisas serão. Nem Roma nem a Beyoncé foram construídos em sete dias. Cada dia é feito de vitórias, recaídas, fracassos, leves melhoras…

Só porque em um dia você teve uma recaída ou um desequilíbrio, isso não significa que as suas vitórias são inválidas. Por exemplo, todo mundo que tem depressão sabe como é difícil levantar da cama e ser minimamente produtivo. Parabéns por isso! Se parabenize pelas melhoras, não importa o quão pequenas elas sejam.

Mas se em um dia você não conseguiu levantar da cama, lembre-se que esse é um processo que talvez leve a vida inteira para ficar estável. Lidar com uma doença mental pode ser muito desgastante. Devemos lembrar também que existem inúmeros fatores que podem melhorar ou não nosso estado! Nem sempre tudo parte da gente. Uma situação mais complicada no trabalho, na família ou com seus amigos pode ser a diferença entre estar bem e estar mal, entre o equilíbrio e a recaída.

Sim, eu sei que é muito difícil entender todas essas coisas quando a gente está mal. Eu sei. Eu passo por isso todo dia. Não escrevo esse post para fingir que eu sou A Iluminada, mas também é um lembrete pra mim mesma. Qualquer momento de recaída – principalmente com a minha compulsão alimentar – é o suficiente para achar que estou fracassando e que minha terapia e os remédios e todo o resto não funcionam mais. Entretanto, as coisas não funcionam assim. UM dia de desequilíbrio comparado a meses e anos de compulsão já mostram uma melhora absurda. O fato de eu me sentir incomodada com isso e perceber que é um comportamento que precisa mudar já mostra que estamos mais atentos à nós mesmos. Já sabemos onde temos que melhorar, onde temos que ficar mais fortes.

Uma recaída pode ser o primeiro passo para deixar tudo pior? Sim, pode. Mas também é a oportunidade perfeita para ficarmos mais fortes, para entendermos coisas novas. Lidar com uma doença mental é um exercício de autoreflexão contínuo. Tem dia que vai ser melhor, tem dia que vai ser pior. O que não adianta é acharmos que todos os dias ruins apagam os dias bons.

É preciso ter calma. É preciso ter muita fé em nós mesmos, na nossa capacidade, mesmo quando parece que não temos nenhuma qualidade. E não são coisas que se enraizam em nós de um dia para o outro, então vale a pena tentar. Nem que seja só por hoje.

A gente cai duzentas vezes, mas a gente se levanta duzentas e duas. É clichê, mas não deixa de ser verdade. Sempre levantamos mais do que caímos.

Nunca se esqueça dos dias bons. Não se esqueça daquela pessoa que sorriu para você, não se esqueça daquela pessoa que se ofereceu para te ouvir, não se esqueça dos elogios que você já recebeu, não se esqueça das suas vitórias.

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“Porque até milagres demoram um pouquinho.’

Dicas para lidar com a ansiedade

Anxiety by Arrrkal

Anxiety by Arrrkal

Hoje é dia das Bruxas e eu resolvi falar sobre algo que atrapalha muita gente: a ansiedade. Não estou falando daquele nervosismo pré-prova ou antes de algo importante, mas sim de quem convive com ela diaria e intensamente. Transtornos de ansiedade podem dificultar muito o nosso dia-a-dia e se deixarmos para lá pode se agravar de maneira bastante perigosa. Decidi então reunir algumas dicas para lidar com ataques de ansiedade da melhor maneira possível. Lembrando que são apenas dicas e nada substitui um tratamento adequado, ok?

  • Respire fundo. Sério. Parece furada, mas as técnicas certas de respiração podem te acalmar não só durante uma crise, mas também no seu dia-a-dia e até na hora de dormir. Eu sempre faço o seguinte exercício de respiração antes de dormir: eu inspiro contando até quatro, depois seguro a respiração contando até quatro e depois expiro contando até oito. Existem outros exercícios, claro, como esse aqui proposto pelo psicólogo Artur Scapato. Repare que quando estamos muito ansiosos, uma das primeiras coisas que mudam é a nossa respiração. Nada mais justo do que nos acalmar usando essa técnica! Lembrando que quanto mais você praticar esses exercícios, melhor eles funcionarão no futuro.
  • Faça o possível para se alimentar bem. Por mais que a ansiedade muitas vezes nos faça comer um monte de chocolate (por exemplo) e isso parece que alivia, pense novamente. O açúcar pode interferir com as suas alterações de humor – alivia por um tempo, mas depois a ansiedade volta a atacar. Uma boa dica é aproveitar as composições de algumas plantas e fazer chás. De acordo com o terapeuta holístico Armando Falconi Filho, chás de erva-cidreira, passiflora, alecrim e camomila tem ótimos efeitos na hora de acalmar a ansiedade. Confira aqui algumas receitas de chá. Ah, lembrando que a cafeína é um terror para quem tem ansiedade! Tente evitar ao máximo.
  • Rasgue papel. Esse é um dos métodos que eu mais uso quando estou muito ansiosa, irrequieta ou estressada a ponto de ficar violenta. Eu normalmente deixo no meu quarto uma pilha de papeis velhos pra quando os ataques chegam. Transfiro toda a minha ansiedade enquanto rasgo o papel em vários pedacinhos. Ajuda a mudar de foco e descarrego o meu estresse.
  • Lembre-se que a ansiedade, muitas vezes, é um truque do seu cérebro. Muitas vezes as crises de ansiedade fazem com que aumentemos qualquer situação. Isso não é uma falha de caráter nem de personalidade. Questione os seus pensamentos. “Essa é uma possibilidade real ou é só mais um truque do meu cérebro”? Tente ao máximo fazer essa autoanálise, pode ajudar bastante na hora de entender a sua ansiedade. Quando entendemos algo, fica um pouco mais fácil na hora de controlar.
  • Tente julgar menos as pessoas. Muitas vezes a ansiedade surge porque temos medo que a pessoa x nos julgue de uma maneira ruim, temos medo da opinião dos outros. Mas por que será que isso acontece? Eu percebi que algumas pessoas, ao mesmo tempo que morrem de medo de serem julgadas, adoram tirar conclusões precipitadas sobre os outros. Tente observar a vida e as pessoas com um pouco mais de compaixão e menos julgamento. Isso funcionou bastante para mim. Quando parei de reparar em tudo e em todos, a opinião dos outros fica cada vez mais sem importância.
  • Lembre-se dos seus acertos. Quando estamos numa crise de ansiedade, é normal lembramos de todas as vezes que cometemos algum erro. Essa é a hora para você ler mensagens de autoafirmação ou tentar se recordar de situações que te deixaram orgulhoso. “Sim, eu caí de barriga na frente da escola inteira, mas eu também já apresentei um trabalho para a escola inteira e falei muito bem”, algo assim.
  • Foque no presente. A ansiedade faz com que a gente se sinta capaz de prever o que vai acontecer no futuro – mas sabemos que não é bem assim. Respire fundo e tente entender qual é a sua situação agora e o que você pode fazer nesse instante. Você caiu na frente de todo mundo? Respire fundo, levante-se, preocupe-se em ver se você se machucou ou não e pronto. Saia andando. Se as pessoas estão rindo ou vão se lembrar pro resto da vida do seu tombo, não há muito o que você possa fazer. Foque no presente, foque em se levantar e cuidar de algum eventual machucado. Eu uso o exemplo do tombo várias vezes porque eu sou ph.D em cair na frente de todo mundo, rs.
  • Pergunte-se: o que eu estaria fazendo se eu não estivesse ansioso? Já que a ansiedade trabalha muito a nossa imaginação, vamos imaginar o que estaríamos fazendo se não fosse o ataque de ansiedade. Tente completar essa tarefa! Uma das piores coisas que fazemos durante uma crise é ficar horas a fio pensando sobre como nos sentimos. Podemos ficar ansiosos só de pensar em ficarmos ansiosos. Focar em outra coisa durante uma crise é essencial.
  • Tente ficar acompanhado. Ficar com outra pessoa ao nosso lado durante uma crise pode nos ajudar muito, nem que seja apenas por mensagem de texto. Encontre alguém que esteja disposto a te ouvir (e que saiba como fazer isso). Muitas vezes, quando estamos acompanhados da pessoa certa, conseguimos nos acalmar e lembrar que tudo vai ficar bem.
  • Tenha sempre por perto algum objeto que faça você se sentir mais calmo. Quando estou em casa, deixar uma vela aromática acesa quando estou nervosa me ajuda muito com a minha ansiedade. Fico por um bom tempo só olhando a chama, tentando absorver o aroma dela, respiro fundo, até me acalmar. Claro que o seu objeto pode ser outro, como alguma almofada, um vaso de flores… você que sabe! Algo que te dê a sensação de segurança, de acolhimento, pode até ser o seu livro favorito. Escolha pelo menos dois objetos: um que fique com você em casa e outro que você possa levar na bolsa ou na mochila, para o caso de você ter algum desses ataques enquanto está fora. No meu caso, eu sempre levo um caderno pequeno e pelo menos uma caneta na bolsa. Me reconforta saber que eu posso escrever a qualquer instante, e muitas vezes já escrevi muita coisa no meio de um ataque de ansiedade. Aí vai de cada um!

Espero que as dicas não sejam tão clichê assim e que realmente ajudem vocês. E relembrando: caso os seus ataques de ansiedade sejam muito graves e frequentes, procure um profissional especializado.

Fiquem bem! ❤

Eu não sou a minha depressão.

Oi, você aí.

Meu nome é Larissa, eu tenho 22 anos e moro em São Paulo. Eu me formei em Publicidade e Propaganda pelo Senac em 2013. Tenho certificado de fluência em inglês desde 2009, quando eu tinha dezessete anos. Escrevo desde que me conheço por gente – inclusive lancei uma coletânea de textos em junho desse ano e já tive um poema meu publicado numa antologia de poemas. Eu já fiz aulas de ballet quando criança, já participei até do coral da escola, fiz aulas de violão, já fiz seis meses de tribal fusion (inclusive saudades). Não sei dançar ballet nem cantar nem tocar violão, mas eu tentei. Ah! Já fiz aulas de natação também. Não sei nadar. Já ganhei uma medalha na Olimpíada de Ortografia com uns oito anos. Já dancei vestida de leoa pra escola.

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O meu filme favorito é o mesmo desde 2003: Chicago. Eu ainda tenho calafrios toda vez que o vejo ou escuto a trilha sonora. Eu sou apaixonada por musicais e se eu pudesse, minha vida seria um. Aliás, taí um ponto alto da minha vida: assistir The Rocky Horror Picture Show e dançar e cantar com amigas queridas. Eu já li todos os livros da série do Harry Potter inúmeras vezes e ainda me pego rindo de algum trecho que lembrei do nada. Eu dou muita risada sozinha. Até demais. Será que é mal de filha única? Não sei. É irrelevante.

Meu TCC foi sobre True Blood, e hoje eu não suporto mais nem escutar o nome dessa série. Aliás, eu sou assim: fico obcecada por uma coisa, devoro tudo o que puder, e depois me canso. Eu amo ficção. Eu amo a ideia de imergir numa vida que não seja a minha. É a única coisa que faz sentido pra mim na maior parte do tempo.

Eu sou alucinada por chocolate, por batata frita, por comida japonesa, por macarrão, por sorvete, por cerveja, por saquê, por chá, por pizza. Eu poderia falar com você sobre comida por horas a fio. Nada me deixa mais chateada do que pagar por comida e não gostar do que estou comendo.

Eu não me lembro quando eu descobri o feminismo – na verdade eu sempre fui meio feminista, só não tinha dado nome aos burros ainda. Eu nunca me senti tão dona das minhas ações e do meu caminho, e se eu puder ajudar outras mulheres nessa caminhada, ótimo. Eu sempre me dei mil vezes melhor com mulheres do que com homens. Acho que isso explica algumas coisas. Eu amo a força da amizade feminina, sempre tive inúmeros exemplos ótimos de mulheres – seja na “vida real”, seja à distância.

Eu tenho amigos. O suficiente, até. Como uma pessoa que odeia sair de casa tem amigos tão incríveis? Sei lá. Mas eu os tenho, e eu os amo, e eles me ensinam coisas novas o dia inteiro. Sem eles, eu não encontraria dentro de mim a força que preciso para sobreviver. Eles me apoiam, mandam eu ir me foder quando necessário, me fazem rir, me fazem chorar (de alegria). Eu torço muito por eles. Quero que cada um deles conquiste o mundo.

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(bateu a preguiça aqui de pegar mais fotos, dsclp)

Além de tudo isso, eu tenho depressão, transtorno de ansiedade generalizada e compulsão alimentar.

Comecei a apresentar os primeiros sintomas com 11 anos. Lógico que na época eu não fazia ideia que eram sintomas de depressão. Achei que era só uma fase. E podia ser só isso mesmo, todo mundo sabe que a adolescência é um período cagado na vida de qualquer um.

Mas eu não queria contar nada disso pra ninguém. Sabia que não me entenderiam, achei que tudo aquilo ia passar. Eu me cortava e me machuava e não entendia o porquê. Eu, que sempre tive as melhores notas da sala, comecei a não querer fazer mais nada. Nem livro pra escola eu lia – euzinha, a que sempre devorou livros. Troquei de escola, tudo piorou mais ainda. Eu descobri o que era ser solitária, o que significava um monte de gente rindo de você, tirando sarro, dizendo que você é menos do que realmente é.

Esse é o problema em achar que tudo é uma “fase”. Às vezes a gente passa pras fases mais avançadas, onde tudo começa a ir por água abaixo. Eu passei anos sem saber receber um elogio – e ainda não sei. Eu passei anos trancada dentro de casa porque me sentia inadequada – e ainda passo. Eu passei anos sem conseguir olhar na cara das pessoas de tanta vergonha. Tudo era mais difícil, tudo era motivo de choro, de mágoa. Eu passei a me tornar uma pessoa agressiva e estourada. Se alguém olhava meio torto para mim já era o suficiente pra eu berrar e xingar. Eu já berrei com um moleque na escola por conta de um comentário tosco sobre a Floresta Amazônica. Eu já fiz escândalo no meio da sala de aula porque não queriam passar a folha de exercícios pra mim. Eu já arranhei meus braços inteiros, descontrolada, porque riram de mim numa aula x. Era assim que eu lidava com tudo: com raiva, com berros, com xingamentos. Grande parte disso porque era o jeito que lidam comigo aqui em casa. Qualquer coisa é grito, é xingamento, é ofensa, é violência.

Eu perdi a maior parte da minha juventude por conta da depressão. Simplesmente porque eu acreditava que eu “era assim” e que “não tinha jeito”. Eu era ruim. Eu não prestava. Eu deveria morrer logo. Eu passei a maior parte da minha juventude querendo morrer. Quando colocaram religião, espíritos e demônios no meio, aí é que a coisa ficou horrorosa mesmo. Já era ruim: ficou pior. Eu achava que isso duraria para sempre.

E de uma certa maneira, isso vai mudar pra sempre. Eu já me acostumei com a ideia de que a depressão sempre vai ser um fantasma na minha vida. Às vezes vou achar que ele parou de me assombrar. Às vezes, como hoje, eu sinto o seu cheiro horrível impregnado na minha pele.

Mas eu estou dizendo tudo isso com um objetivo muito claro:

Eu não sou a minha depressão.

Eu não sou a minha ansiedade.

Eu sou tudo o que eu disse no começo desse texto. Eu sou uma pessoa animada, apaixonada por inúmeras coisas e pessoas, curiosa, tolerante, e o que eu mais quero na vida é ajudar as pessoas. Quando alguém me diz que esse blog os ajudou, nada me deixa mais feliz. Nada. Minha vida não faz sentido se eu não puder estender a minha mão.

A depressão faz parte da minha vida, mas ela não É a minha vida.

Eu sou uma pessoa como você. Eu só preciso de um pouco de ajuda pra chegar lá. Seja com terapia, seja com remédios, não importa. A Larissa que chora e grita querendo morrer também é uma Larissa, concordo, mas ela não sou eu em minha totalidade. A Larissa que chora e grita de rir também faz parte de mim. Eu sou multidimensional – todos nós somos, não sou especial.

Quando você me reduz ao que eu tenho, você reduz a minha essência. Você reduz a minha capacidade de viver melhor, você reduz toda a minha luta contra a depressão, você reduz todo o trabalho que eu tenho pra me manter em pé. Quando você diz que o que eu tenho é “um demônio”, você ignora o trabalho da minha psicóloga e psiquiatra, você reduz todos os anos que ela estudaram para poder me ajudar. 

A minha depressão dificulta inúmeros aspectos da minha vida. Diminui minha capacidade de concentração, minha vontade de viver, minha energia, minha vida profissional… Mas isso não significa que eu seja INCAPAZ de me concentrar, incapaz de viver, incapaz de ter uma vida profissional plena. Eu só preciso de ajuda específica pra fazer todas essas coisas.

Meu nome é Larissa, eu tenho 22 anos, moro em São Paulo e tenho depressão.

Eu tenho depressão.

Eu não SOU a minha depressão.

Ela não me define. Gostar de filmes me define, gostar de chocolate me define, gostar de escrever me define, gostar de ajudar os outros me define. Minhas crises depressivas NÃO. ME. DEFINEM. PORRA.

Eu não sou uma “””””retardada mental”””” por precisar de ajuda pra viver a minha vida bem. Aliás eu nem sei como começar a falar sobre o quão errado é esse termo.

Meu nome é Larissa, eu tenho 22 anos e eu tenho depressão.

Seria infinitamente mais fácil lutar contra isso se você calasse a boca antes de cagar preconceito.